“Nós tá querendo na verdade é ir para uma casa, sair da rua. Não estamos aqui porque queremos, é porque não temos lugar para ficar mesmo”. A fala é de Marcos, que há mais de um ano vive com a esposa, Delma, na cozinha do Restaurante Popular, abandonado pela Prefeitura de Montes Claros, depredado e saqueado.

Assim como ele, centenas de pessoas buscam esses imóveis abandonados ou as próprias ruas da cidade para viverem. Uma estimativa da Pastoral de Rua é a de que Montes Claros tenha cerca de 700 pessoas nessa situação. E elas estão bem próximas aos olhos de cada cidadão e sem qualquer auxílio de políticas públicas.

A Praça da Matriz é um dos pontos de concentração dessa parcela da população. Até mesmo barraca de camping foi montada em um dos principais cartões-postais da cidade. Colchões, fogões improvisados e um amontoado de pertences desses ocupantes fazem parte do cenário.

O NORTE percorreu vários pontos da cidade, passando por praças, viadutos, as chamadas zonas quentes de criminalidade e até mesmo o Restaurante Popular, e constatou que a presença de pessoas em situação de rua cresceu consideravelmente.

O fenômeno, considerado mundial, fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Moradia divulgasse um relatório especial pedindo que governos de todo o mundo reconheçam o problema dos sem-teto como uma crise de direitos humanos.
 
PREOCUPANTE
Os números mais recentes justificam a elaboração do relatório. De acordo com estimativas realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2016 existiam 101.854 pessoas vivendo em situação de rua no Brasil. A gravidade do problema foi retratada também em dados do Movimento Nacional de População em Situação de Rua, que em 2017 constatou que quase 90% desse público são pretos e pardos.

Vivendo em barraca na praça onde a cidade teve origem, a menos de 100 metros do Casarão dos Maurícios, que abriga a Secretaria Municipal de Cultura, Marlon Pereira da Cruz, de 39 anos, conta que a vida na rua já dura anos. Enquanto preparava um “mesclado”, revelou, com os olhos fixados na droga, que há mais de 16 anos mora na Praça da Matriz. Pai de quatro filhos, com os quais conviveu durante muito tempo e que moram com a ex-mulher no Distrito Industrial, lembra que perdeu o caminho depois que a mãe morreu.

“Nesse mundão daqui sou independente de tudo, da vida, dos outros e até de Deus. Mesmo porque não dependo de ninguém para comer, beber, morar. Se não tiver barraca, lugar para dormir, eu forro um papel ali (apontando para a direção do Centro Cultural Hermes de Paula) e durmo. Caio debaixo de qualquer árvore aqui da praça e pronto, deito, qualquer canto é canto”. 

Leia mais:
Novo albergue poderá atender 60 pessoas
Asfalto como prioridade