O som do bem-estar

A cada nota e harmonia, musicoterapia é ferramenta que ajuda a socializar e reabilitar pacientes

Patrícia S. Dumont
Hoje em Dia - Belo Horizonte
Publicado em 24/11/2018 às 06:43.Atualizado em 28/10/2021 às 02:17.
 (FLÁVIO TAVARES)
(FLÁVIO TAVARES)

Tocar um instrumento musical, treinar o ouvido para perceber as diferentes combinações de acordes e a própria letra ou simplesmente deleitar-se com o artista preferido. Os benefícios da música vão além de agradar os ouvidos. Capaz de interferir no funcionamento do corpo, ajuda a tratar doenças, melhorando aspectos como fala, coordenação motora e equilíbrio, promovendo ganhos intelectuais e sociais.

Na Associação Mineira de Reabilitação (AMR), em Belo Horizonte, as aulas de musicoterapia acontecem preferencialmente em grupo. O motivo, explica Cibele Maria Veiga Loureiro – coordenadora do projeto de extensão de Musicoterapia da UFMG na instituição –, é promover “espelhamento” entre os participantes. “Espelhar-se em outra criança aumenta a motivação e a interação com o outro, com o terapeuta e consigo mesmo”.
 
HABILIDADES
Atenção, comunicação, expressão, compreensão e movimento são algumas das habilidades trabalhadas na casa, que atende crianças e adolescentes até 18 anos. A maioria com sequelas de paralisia cerebral, apresentando algum tipo de distúrbio de movimento. As deficiências, no entanto, são múltiplas, diz a musicoterapeuta Verônica Magalhães Rosário, supervisora da clínica de estágio na AMR e professora na UFMG.

“Utilizamos a musicoterapia neurológica para trabalhar, principalmente, a reabilitação sensorial e motora, de movimentos, da fala e da linguagem, e também cognitiva, a memória e a atenção”.

As aulas, que duram 1h15, se dividem em canção de acolhimento, para situar os alunos; de identificação; de movimento, que estimula o corpo, e em momentos de produção musical pelos próprios pacientes. “Tocam guisos, chocalhos ou instrumentos como xilofone e metalofone, conforme o propósito desejado”, enfatiza Verônica.
 
ABORDAGEM
Profissional com 30 anos de experiência em musicoterapia, a psicóloga Simone Presotti explica que a abordagem da musicoterapia varia conforme o histórico do paciente e segue, portanto, um plano terapêutico traçado individualmente.

“O diferencial está na possibilidade de investigarmos o quadro de maneira sistêmica. O musicoterapeuta estuda anatomia, neuroanatomia, desenvolvimento humano e tem conhecimento amplo sobre doenças e suas implicações. Os resultados estão nas sutilezas”, acrescenta.

Os pacientes são levados a se envolver com as abordagens musicais, participando ativamente da própria melhora. A maior parte deles, conforme a musicoterapeuta, demanda intervenções em diferentes aspectos, dentre eles fala, socialização e coordenação motora.

“Crianças com instabilidade motora global, por exemplo, que têm pouco interesse em manusear objetos, podem usufruir da música como fator motivacional. De toda forma, mesmo quando alcançamos determinado objetivo terapêutico, sempre há o que se iniciar. A alta não é tão rápida”, esclarece Simone.

Auxiliar na relação da família, no tratamento de pais com filhos, é outra função, indireta, da ferramenta. “Orientamos sobre um repertório musical que seja mais adequado para cada caso e sobre como criar álbuns que sejam terapeuticamente proveitosos. Não é simplesmente colocar a criança para ouvir qualquer música”, enfatiza Simone Presotti.

Boa para a memória, raciocínio e motricidade
Embora percorra caminho diferente da musicoterapia, a educação musical, que tem viés pedagógico, também produz efeitos positivos sobre equilíbrio de corpo e mente. Professor na Escola de Música da UFMG, o médico João Gabriel Marques Fonseca diz que os ganhos passam por quatro eixos, incluindo memória, cognição e funções fisiológicas do organismo.

“A música é um instrumento cognitivo poderoso, independentemente da faixa etária. Melhora memória, raciocínio, estimula a motricidade, interfere no ritmo cardíaco, na pressão arterial e na respiração e emociona, no sentido mais genérico da palavra”.

Os ganhos, segundo ele, são ainda maiores quando utilizada com alunos da terceira idade, que já dispõem de boa concentração e atenção. “Com eles, é capaz de estimular memória e atenção crítica, promovendo grande benefício cognitivo. Se além de tocarem ou cantarem, se dispuserem a compor, ganharão ainda mais”.

Em relação aos reflexos sobre funções vitais do organismo, o professor explica que a escuta ativa ajuda a equalizar o funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável pelo controle de sistemas fisiológicos vitais e de órgãos como coração e pulmão.

“Nesse aspecto, o equilíbrio propiciado pela música pode colaborar no tratamento contra doenças muito comuns, como hipertensão e diabetes. Há trabalhos científicos que estudam, inclusive, o efeito positivo da audição voluntária em pacientes em pós-operatório de grandes cirurgias, internados em CTI. Mostram resultados satisfatórios na evolução do tratamento”.
 
MOTIVAÇÃO
O contador aposentado José Rubem, de 71 anos, desejava aprimorar as habilidades no violão, mas não fazia ideia dos outros ganhos que estavam por vir.

“Via pessoas novas com perda de memória e comecei a fazer aulas para ‘trabalhar a cabeça’. Foi, de fato, muito positivo”, diz o agora violinista, que faz aulas individuais há seis anos e sente-se, desde então, mais motivado e bem disposto para executar as tarefas do dia a dia.

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