Quando o infectologista mineiro Unaí Tupinambás se formou em Medicina, na metade dos anos 1980, o mundo vivia assustado com outro vírus: o HIV, causador da Aids. Momento marcado por preconceito e desinformação, semelhante à chegada do novo coronavírus. 
 
“No início, as pessoas achavam que poderiam pegar Aids com o toque e havia muita estigmatização. Assim como vimos com os asiáticos, no começo da Covid-19. Tudo que gera pânico ocasiona ações desproporcionais”, afirma Tupinambás, um dos nomes à frente do comitê criado para enfrentar a doença em Belo Horizonte.
 
Professor da Faculdade de Medicina da UFMG, o infectologista assinala que o HIV foi a primeira epidemia que vivenciou. “Mas, infelizmente, não foi a última”, listando doenças como dengue e H1N1. “Mas essa agora (Covid-19) foi a que realmente me tirou do prumo, mudando completamente a minha rotina”.
 
Correr na rua, “ir para o mato”, como gosta de dizer, e ver um filme no cinema são prazeres temporariamente suspensos. Mesmo a leitura, outra de suas distrações, se voltou para o coronavírus, com artigos científicos e um livro sobre a gripe espanhola ocorrida em 1918. “A gente vê que cometemos os mesmos erros de cem anos atrás”, observa.
 
Quatro vezes por semana, ele acorda bem cedo e escolhe um supermercado longe de casa para se obrigar a caminhar por, pelo menos, uma hora. “É uma forma de fazer ginástica”, explica. A relação com Ana Lúcia, também médica e parceira de vida há 30 anos, é um alento. “Ela tem tornado essa travessia um pouquinho mais suave”.
 
Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o médico confessa que jamais imaginou que iria passar por uma pandemia tão aguda. “É um dos maiores desafios da minha carreira, um dos mais duros que tenho enfrentado”, garante Tupinambás.
  
O senhor começou a carreira no ambulatório do Hospital das Clínicas com pacientes de HIV. É possível traçar um paralelo com o coronavírus? 
São situações muito parecidas. Primeiro, em relação ao medo, pânico, preconceito de entrar em contato (com os pacientes). Logo nos primeiros meses da pandemia de HIV, as pessoas achavam que podiam ter Aids pelo toque, quando, na verdade, (o contágio) se dava pelo sangue, pela relação sexual desprotegida. A estigmatização aconteceu. No caso da Covid, tivemos um preconceito contra os asiáticos de forma geral. Tudo que gera pânico ocasiona reações desproporcionais. Em ambos, houve promessa de curas milagrosas e negação da doença, de que não era bem aquilo. E oportunistas que, naquela época, vendiam soro de cavalo. Engraçado, quando trabalhava no ambulatório do Hospital das Clínicas, o perfil no início era de jovens de classe média que vieram dos Estados Unidos, depois de fazerem intercâmbio. Era uma doença de classe média, média alta, e de homens. Com a Covid foi muito parecido. Ela começou no Brasil com pessoas que vieram da Europa, e não da China. No início da pandemia em Belo Horizonte, ela se concentrava nos bairros mais ricos. Agora, infelizmente, está se espalhando de forma bem intensa nas populações mais vulneráveis. Nos anos 1980, tinha uma frase assim: “quem vê cara, não vê Aids”. Achavam que a pessoa que não estava doente não tinha Aids, só alguém tipo o saudoso Cazuza (o músico chegou a se apresentar muito magro e com pouco cabelo) transmitia HIV. Com a Covid, a mesma coisa, pois os assintomáticos e os pré-sintomáticos também transmitem o vírus. A maior de todas as semelhanças é a reação irracional, que não é boa para enfrentar a pandemia.
 
O senhor disse que está lendo um livro sobre gripe espanhola e que estamos cometendo os mesmos erros de 1918. Quais são eles? 
Além do pânico, o fato de não propor as medidas farmacológicas e de não tratá-la como uma doença casual. Naquela época, ela era tão letal quanto a Covid é hoje. Tem um documento das autoridades sanitárias implorando para as pessoas ficarem em casa e indicando, já naquela época, o quinino, que é um dos princípios da cloroquina. Desde lá já se falava da cloroquina na prevenção e no tratamento da gripe. Infelizmente, a gente viu que a cloroquina, para o tratamento de Covid, não é boa. E o livro mostra como a população estava despreparada.
 
Belo Horizonte vê hoje uma explosão de casos do novo coronavírus. O senhor acredita que a flexibilização do comércio pode ter motivado esse cenário?
Em 25 de maio, a gente propôs a tentativa de reabertura, porque naquele momento a gente sabia que não poderia ficar na caverna até a vacina chegar. Tem que se buscar uma alternativa, pois a população mais carente tem tido pouca resposta do governo federal, como dificuldade de acesso à renda básica. E ela precisa sair para ganhar o seu alimento. Sabíamos que estávamos correndo o risco de aumento dos casos. Para nossa surpresa, você vai ver que, quase um mês depois, houve um aumento, mas que não foi exponencial. Acho que, por ter fechado no tempo adequado, a nossa curva, por enquanto, é um sucesso relativo. Por enquanto, a nossa curva não está tão exponencial como a de alguns estados e cidades do interior de Minas. Costumo falar que nós podemos construir a nossa curva ainda. Depende de cada um de nós. A gente pode fazer uma curva mais íngreme, como a de Manaus, que teve uma alta taxa de letalidade e criou um trauma na sociedade, ou uma mais branda, como foi em Cingapura e Coreia do Sul, com pouquíssimas mortes. 
 
Estamos no finalzinho do jogo da primeira fase. Estamos naquele momento crucial da partida. Está todo mundo cansado, mas é agora que está o perigo. Mesmo ganhando de 1 a 0, o adversário pode vir e virar o jogo no final. Não está na hora de relaxar.
 
Como será feita a transição no momento em que os casos começarem a diminuir? Quando as aulas deverão ser retomadas?
O mundo não vai ser mais o mesmo, em vários aspectos. E que bom que não será mais o mesmo. Pois vamos combinar, ele não estava bom, com assassinato de jovens, homofobia, racismo... Quem sabe não podemos fazer alguma coisa diferente? O comportamento terá que ser diferente. Na faculdade, a gente não vai poder dar aula para mais de 50 alunos. Os ambientes terão que ser abertos. Nas aulas no ambulatório, vamos ter que deixar os pacientes lá fora, esperando, e chamar um por um. Terá que haver turnos de entrada e saída. Aqueles profissionais com maior vulnerabilidade vão ter que ser direcionados para o home office, ajudando de outra forma que não seja em contato com a população. Cada escola, do fundamental ao ensino superior, terá que construir a sua proposta de saída. Porque a gente não pode ficar esperando a vacina eficaz, que pode demorar alguns anos. É uma questão complexa que tem que ser discutida desde já. Esta mudança de comportamento tem que ser discutida com todos os envolvidos, de maneira horizontal e transparente, pois ela tem que ser perene, tem que ser com todos. Quando voltar, terá que ser naquele desenho novo. Será um mundo mais chato, infelizmente. A gente constrói a nossa identidade, principalmente os meninos mais novos na convivência afetuosa. Tapando o rosto, a gente não sabe se a pessoa está rindo ou chorando. Isso vai impactar a educação infantil. Os professores da educação mais básica terão que ter um instrumento para verem a expressão facial das crianças. Mais do que nunca, a população tem que ser instrumentalizada, para se ter consciência da epidemia.
 
 
Estamos propondo uma saída mais organizada. Mas ainda não é o momento de festa, futebol, ir à missa ou qualquer outro culto religioso, já que a transmissão (do vírus) é muito mais eficaz entre quatro paredes