Você pode até não saber o que é nomofobia, mas muito provavelmente já apresentou sintomas desse mal da modernidade ou conhece alguém que tem crise de ansiedade, angústia, insônia e suor excessivo se ficar sem o celular por algum motivo. Mesmo que seja por poucas horas, a fobia, o medo irracional de ficar “desconectado” é preocupante.

Pesquisa publicada pela Digital Turbine, empresa de plataforma de comunicações móveis, aponta que 20% dos brasileiros não conseguem ficar mais de 30 minutos longe do aparelho. Outro levantamento, do Google, revela que 73% não saem de casa sem os seus dispositivos. 

Essa enorme dependência já virou problema na vida da adolescente Júlia Luiza de Carvalho Barbosa. Aos 17 anos, ela reconhece o vício e não sai de casa sem o carregador que garante o aparelho sempre ligado. E disse que descobriu o problema durante uma viagem, quando a falta de luz elétrica a deixou sem o celular por sete horas. “Foi um terror, tive uma crise de ansiedade, fiquei irritada e cheguei a suar frio”, diz Júlia. 

Mãe de Júlia, Marizete Carvalho diz que a filha não abre mão do telefone nem durante as refeições e por isso se preocupa com a saúde mental da adolescente, que trabalha como modelo. O uso excessivo do aparelho gera conflito entre mãe e filha, que discutem de maneira recorrente sobre o problema. “Tem horas que a gente está falando com ela, que não ouve, porque está sempre com o celular na mão, parece que em outro mundo”, afirma.
 
PÂNICO DO OFF-LINE
O psiquiatra Marco Túlio de Aquino diz que o problema é mais abrangente do que o simples fato de ficar sem o celular. Trata-se do desconforto de ficar off-line, sem as tecnologias que estão embutidas nele.

Segundo o médico, a nomofobia ainda não faz parte da classificação internacional de doenças, mas já se tornou grande preocupação entre os especialistas, que chamam o transtorno de “síndrome da dependência digital” ou transtorno da hiperconectividade. 

“As primeiras pesquisas sobre o tema surgiram na Inglaterra e também há muitos estudos em países asiáticos, onde a presença da tecnologia é muito forte e as relações sociais são diretamente mediadas por ela”, diz o especialista.

O uso racional e necessário da tecnologia e do celular faz parte da normalidade do mundo moderno, lembra o psiquiatra. A patologia se instala quando o indivíduo fica sem a possibilidade de se conectar e começa a apresentar sintomas físicos e mentais semelhantes a de uma abstinência de drogas.

“Causa angústia, nervosismo, ansiedade, sensação de desconexão com o mundo, sudorese, insônia, enfim, um sofrimento muito grande”.

As longas horas de conexão afetam a saúde dos olhos, atrapalham o sono e provocam sensação de fadiga. Além disso, lombalgia e má alimentação.

A psiquiatra Jaqueline Bifano pontua que a dependência do celular é bastante comum em adolescentes. “Estes jovens não conseguem desligar nem mesmo durante a consulta, o que é motivo de briga com os pais e discussões regulares na família”, afirma.

A psiquiatra revela ainda que outros sintomas comuns da nomofobia são a obsessão de verificar mensagens, ligações, e-mails e as redes sociais o tempo todo. 

“A pessoa tem a necessidade de ver o que estão postando, falando sobre ela, e pensa o tempo todo nisso. Ela não vive o presente, não se desconecta”, alerta a especialista. 

A palavra nomofobia é derivada do inglês (no-mobile), que significa literalmente “sem celular”. 
 

É preciso ficar atento aos sinais que indicam vício e adotar medidas para desintoxicar da hiperconectividade
 
- Defina horários para utilizar o celular
 
- Busque atividades alternativas e prazerosas
 
- Faça atividade física regularmente
 
- Converse com as pessoas da família ou amigos
 
- Ao terminar de usar o celular, desconecte-se
 
- Tente resistir à compulsão de checar o tempo todo as redes sociais
 
- Procure ajuda profissional com abordagem psicoterápica ou, se necessário, tratamento medicamentoso
 
- Não use celular ao menos uma hora antes de dormir