O baile do cabide

Jornal O Norte
30/09/2005 às 10:44.
Atualizado em 15/11/2021 às 08:52

Ary Penaverde *

Em 1972, uma festa promovida por jovens da sociedade local abalou a cidade. Não mais que oito rapazes de destaque, entre eles dois já bastante coroas, arrebanharam algumas garotas que freqüentavam o Automóvel Clube e foram terminar a noite na casa de um deles.

Na entrada da sala foram colocados, estrategicamente, três cabides, tipo araras, muito usados em boutique. Assim, cada convidado (ou convidada) ao entrar penduravam as roupas, não havendo distinção entre homens ou mulheres.

A nudez era total, havia mulheres de todas as cores e tipos, loiras, morenas e mulatas, o mesmo acontecendo com os homens.

Havia muita cerveja e uísque, podendo os convidados se servirem à vontade.



Com meia hora de festa, a sodomia e a devassidão era total, todos embriagados, não havia um lugar ou cantinho em que não houvesse um casal em esfregação. Naquela casa imperava o espírito dionisíaco, gerador da exaltação e embriaguez com o espírito gaulês, que se caracteriza por uma alegria libertina.

Tudo acontecia ao som dos Beatles e dos Rolling Stones que, associados à bebida e a luxuria existente no local, levavam a turma ao frenesi.

Pela manhã encontravam-se todos dormindo, todos os cômodos da casa estavam ocupados, até mesmo a banheira branca acomodava um casal.

Bem cedo, um dos participantes, hoje conceituado médico, pressentindo a confusão que se vislumbrava, resolveu ir embora, levando consigo mais dois amigos. Foram para a fazenda do seu pai, onde permaneceram por trinta dias, até que a poeira assentasse.

Os outros rapazes também tomaram rumo desconhecido, fugindo da sanha dos pais das donzelas (?) e da policia, que instaurou inquérito.

No dia seguinte, O Jornal de Montes Claros estampava a seguinte manchete em letras garrafais: Rapazes da sociedade promovem baile do cabide em casa do centro.

Dias depois, um dos promotores da festa, ao encontrar algumas moças conhecidas em um barzinho da cidade, foi criticado duramente por elas, que se sentiram injustiçadas e descriminadas por não terem sido convidadas. Notadamente, o prestígio dos libertinos aumentara entre a moçada.

Todos os jovens dessa festa hoje estão na casa do cinqüenta anos, alguns casados, pais de família, outros profissionais liberais com destaque na sociedade.

Com certeza relembrarão com saudade de uma festa com muito escândalo, mas que não teve um mínimo de droga.

Hoje, essa festa, comparada com os bailes funk, teria a classificação de baile infantil...

* Escritor e criador de bicudos

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