Fantasia

Jornal O Norte
Publicado em 18/07/2005 às 16:27.Atualizado em 15/11/2021 às 08:48.

Ronaldo José de Almeida *



Leopoldo, jovem e conceituado advogado, sempre ao cair da tarde, no final do expediente, ficava numa mesa lá do bar da esquina e comprazia-se com cerveja e petiscos vendo o footing de belas moças.



Quase sempre Lícia passava por ali, e ele a engolia com os olhos.



Realmente era uma linda mulher, provocante e aparentemente lasciva.



Ela tinha conhecimento dos anseios amorosos do rapaz, porém mantinha-se comedida; destinava-lhe apenas um leve olhar, quase de desdém.



Num determinado final de tarde, Leopoldo, como sempre, estava naquele bar conversando com um amigo, quando avistou a moça se aproximando. Imediatamente parou a conversa e posicionou-se voltado para ela.



Lícia vinha caminhando lentamente em direção à mesa onde o rapaz se encontrava. Ao contrário das outras vezes mirou-o; seus olhos possuíam um brilho diferente denotando interesses outros.



Parou no local sem dizer nenhuma palavra, apenas seus olhos fixaram o advogado, que de certa forma demonstrou ter ficado assustado.



Leopoldo levantou-se cordialmente e convidou a moça para assentar-se. Ela aceitou e pediu uma Coca-Cola diet. A conversa girou em torno de amenidades. O companheiro do causídico ficou inteiramente esquecido, como que abandonado no limbo.



A certa altura, Lícia  colocou uma das mãos carinhosamente no braço esquerdo do rapaz, dizendo-lhe então:



- Leo, vamos sair, procurar um lugar mais reservado.



- Tudo bem – o rapaz respondeu-lhe um tanto quanto surpreso com a proposta.



O casal despediu-se do amigo e seguiu rumo a uma pracinha. Andou poucos metros quando então o profissional liberal, já íntimo, abraçado àquele esplendor de fêmea, propôs-lhe baixinho:



- Lícia, eu moro aqui neste prédio, vamos ao meu apartamento tomarmos um vinho!



- Você mora sozinho? – perguntou a moça.



-Sim, moro sozinho. Sou divorciado, não sabia?



- Não, Leo, não sabia, mas para mim não faz diferença.



- Não entendi bem, Lícia, mas tudo bem. Vamos.



Chegando ao apartamento, a moça sentiu-se completamente à vontade, estirou-se no confortável sofá, deixando suas belas e torneadas pernas à mostra, com isto enlouquecendo ainda mais o rapaz.



Este, de forma educada, falou para a mulher ligar o CD player, enquanto tiraria o terno para tomar um banho.



Bruscamente, Lícia levantou-se e determinou, como se fosse uma ordem:                - Não, Leo, fique assim mesmo.



- Lícia, não estou entendendo o que disse?



- Estou lhe dizendo para não trocar de roupa, para ficar com o terno.



- Eu estou muito suado, tive uma audiência demorada mais cedo no fórum.



- Por isso mesmo, meu advogadinho, quero que fique vestido assim de terno e bem suado, salgadinho, do jeito que planejei – arrematou a fêmea luxuriante.



- Quer me explicar o que tem em mente, menina?



- Sabe o que eu quero, Dr. Leopoldo? Vou lhe explicar, preste atenção. A minha fantasia é transar com você, porém, você a rigor, de terno como agora, suado. Se você tirar não me interessa, vou embora.



- Não. Farei do jeito que você quiser, de termo, de pijama, de roupão, de batina, de beca, você manda e eu obedeço.



Leopoldo foi falando e abraçando Lícia, que se entregou aos seus beijos e carícias.



Aquela Vênus do amor se desfez das roupas. Sedenta de sexo assim fantasiado, arrastou seu companheiro para o quarto de casal. Ali os dois jogaram-se na cama.



Em questão de segundos, do início do conluio carnal, Lícia deu novas ordens, enlouquecida de excitação, mandando que o seu parceiro passasse a gritar reiteradas vezes, em alto e bom som, a expressão jurídica data venia, a qual quer dizer com o devido respeito.



Temendo a paralisação do ato caso desobedecesse a ordem, não restou ao advogado outra alternativa a não ser ficar repetindo, dezenas de vezes, data venia, data venia, data venia!



Após o orgasmo intenso, Lícia estava totalmente descabelada e suada, já demonstrando certa sonolência, a exemplo do seu par, que somente então pudera tirar o incômodo terno.


 


Lá fora a matrona vizinha do apartamento do Dr. Leopoldo, que ouvira os gritos de data venia proferidos pelo advogado, visivelmente irritada, demonstrava muita irritação ao conversar com a filha:



- Veja, minha filha! O advogado aí agora resolveu treinar para suas audiências em casa! Não vou suportar tantos gritos! Vou queixar-me para o síndico!



* Advogado e escritor

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