Wendell Lessawendell_lessa@yahoo.com.br

A verdadeira humanidade

21/04/2022 às 00:05.
Atualizado em 21/04/2022 às 11:29

O que é o ser humano? James Sire, em seu “Universo ao Lado”, coloca essa pergunta entre as oito questões fundamentais que se constituem em proposições básicas que determinam a nossa visão de mundo. Definir o que é o homem e a razão de sua existência determina uma parte muito significativa do modo como nos relacionamos conosco, com as pessoas, com o mundo e com a divindade. O homem é uma máquina complexa, um animal racional, um macaco nu, um deus adormecido ou uma pessoa criada à imagem de Deus?

Se você, por ser cristão, rapidamente respondeu a essas perguntas com a última resposta, tendo sido influenciado por sua fé, restam-nos outras opções: se o homem foi criado por Deus, qual Deus? Teria sido o grande Mbombo, como creem os bacubas do Congo, senhor do mundo obscuro que vomitou o Sol, a Lua e as estrelas para se livrar de uma dor de barriga? Qual foi, de fato, o objetivo para o qual Deus, ou um deus, criou o homem?

E as perguntas não param por aqui. Esse homem criado por Deus possui a divindade dentro de si por ser parte de um mundo divinamente orientado, no qual Deus está presente em todas as coisas, como nos animais, numa singela plantinha e em um pássaro que canta em sua janela pela manhã? Afinal, a “mãe natureza” não possui também a divindade capaz de nos harmonizar com a nossa consciência e com o mundo? E a “consciência”, o que ela é? Seria a consciência uma forma de projetarmos um deus qualquer na tentativa de explicar o que nós somos, quando, talvez, sejamos nós mesmos o verdadeiro deus, como pretende ensinar o humanismo?

Todas essas complexas questões nos levam a refletir sobre “O que é o ser humano?”. Nossa consciência parece querer habitar o mundo e compreendê-lo completamente, mas quase sempre não conseguimos entender que nós não cabemos inteiramente nele e as nossas limitações são altamente positivas nesse caso. Ao desejar nos unir ao mundo e à sua natureza por meios finitos e por conceitos humanistas, tornamo-nos prisioneiros das coisas criadas e reduzimos tudo o que somos a quase nada, porque nos tornamos escravos de nossa própria mente e das ideias que os homens, ao longo dos séculos, tentam construir.

A proposta judaico-cristã parece ser a que mais consistentemente oferece resposta a esse problema do autoconhecimento humano. Sua proposta define o homem como um ser criado por Deus à sua imagem e semelhança, com distinção das demais criaturas, e que recebeu mandatos bem definidos (espiritual, social e cultural) para que o homem cumpra sua “missão” neste mundo de modo a encontrar-se consigo e com o seu Criador. O ser humano tem identidade e propósito, portanto. Ele é imago Dei (imagem de Deus) e deve viver coram Deo (diante da face de Deus), para a glória do próprio Deus e não para sua própria glória. A razão de ser não é a sua própria felicidade autônoma, mas uma felicidade derivativa que repousa no ser que afirma quem é o homem e qual é a sua missão.

Assim, o cristianismo opera no sentido de dignificar a existência do homem, dando-lhe identidade e propósito bem definidos. Quem se vê a partir dessa perspectiva não se perde em infinitas teorias subjetivas e ineficazes, mas encontra repouso para sua consciência atribulada e cansada, e faz eco às palavras de Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti” (Confissões). A humanidade, portanto, se define não nela mesma, mas naquele que a criou para sua glória.

  

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