Alexandre FonsecaJornalista, mestre em literatura e doutorando em literatura

A morte não é nada

Publicado em 31/03/2023 às 23:00.

Foi estranho ter que chamar um táxi às 13h de uma segunda-feira para ir ao seu velório. Algo nessa frase ainda não entrou na minha cabeça. Dia quente, estranho, dolorido. Dentro do táxi, enquanto via as coisas em movimento, a rotação da vida ficou suspensa. Não éramos melhores amigos. Na verdade, fazia alguns bons anos que não nos víamos, e até nos distanciamos por motivações políticas. Entretanto, você e seu irmão estão solidificados em uma temporada muito boa da minha vida. 

Para situar o leitor-amigo, minha mãe trabalhou durante muito tempo para sua família. Te viu crescer, quase nascer. Ela sempre me contava, aos risos, quando você comia macarrão e torcia a orelha, simulando uma manivela, enquanto o alimento era mastigado e descia garganta a dentro. Minha mãe te amava muito. 

Se não me falha a memória, nosso primeiro encontro se deu em 2003 quando cursávamos a 4ª série do antigo ciclo básico. Sua mãe foi nossa professora de matemática e você meu primeiro objeto de inveja infantil. Posso ser muitas coisas, mas falso não sou. Assumo: tive inveja de você. Meus olhinhos de criança brilhavam quando viam seus estojos articulados com suas lapiseiras, sua mochila-carrinho e sua coleção de lápis de cor Faber Castell. Quem naquela época tinha lápis com toques metálicos? Você tinha. E eu tinha inveja. Sei que não é bonito dizer isso, mas fazer o quê?! Você foi um amigo especial, me apresentou coisas que eu jamais teria acesso naquela época: computador, vídeo game, granola, revista recreio, The Offspring, peças lego, fita cassete, jogos de tabuleiro... 

Infelizmente, a morte acontece. Chega e nos leva. Finaliza ciclos e inicia novos. Existe um poema atribuída a Santo Agostinho, do que eu gosto muito, chamado “A morte não é nada” que diz: “A morte não é nada. / Eu somente passei/ para o outro lado do Caminho. / Eu sou eu, vocês são vocês. / O que eu era para vocês, / eu continuarei sendo. / Me deem o nome/ que vocês sempre me deram, / falem comigo/ como vocês sempre fizeram. / Vocês continuam vivendo/ no mundo das criaturas, / eu estou vivendo/ no mundo do Criador”. 

O mundo sempre fica meio vazio quando alguém parte.

Eu sinto muito, H. Pelos que vão e pelos que ficam. 

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