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Desarmonizar para se reencontrar

Guilherme Ribeiro*
Publicado em 12/03/2025 às 19:00.

As cenas do cotidiano, mesmo as mais triviais, às vezes nos lançam em reflexões inesperadas. Acredite! Já explico.

Outro dia, na fila do supermercado — esse território em que o tempo se arrasta e as prateleiras parecem observar o tédio alheio —, meus ouvidos foram capturados por uma conversa ao lado. Uma jovem falava com o companheiro sobre uma atriz — cujo nome me escapa agora — que havia decidido remover as próteses mamárias. O papo seguia leve, quase desinteressado, até que ela soltou uma frase que ecoou em minha mente: “Agora virou moda isso também, né? As famosas todas tirando o silicone.”

A fala da jovem, mesmo sem o respaldo da ciência, não estava completamente fora da realidade. De fato, o movimento de explantes e a busca pela reversão de procedimentos estéticos têm ganhado força, tanto entre celebridades quanto entre pessoas comuns. E os números estão aí para corroborar: de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o número de explantes de próteses de silicone no Brasil saltou de cerca de 15 mil para mais de 41 mil por ano — e isso em menos de uma década.

É como se uma nova onda — agora pela autenticidade — estivesse se formando, trazendo à tona histórias de quem decidiu se “desfazer” das intervenções estéticas do passado. Mas aqui, preciso discordar fortemente da jovem do mercado: reduzir esse movimento a uma moda passageira é perder de vista o ponto principal. Diferentemente das tendências que vêm e vão, essa mudança parece ancorada em algo mais profundo: uma reavaliação genuína da relação com o próprio corpo, uma busca por conforto, saúde e, sobretudo, por verdade. Destaco, porém, para que não fique dúvida: a busca pela autenticidade não significa apenas reverter procedimentos estéticos, mas sim fazer escolhas conscientes, sejam elas para colocar ou retirar uma prótese mamária, por exemplo.

Para muitos, isso pode soar contraditório. Ora, a medicina estética avança a passos largos, e a busca pela beleza ideal parece interminável. Mas então, por que tantas celebridades — justamente aquelas que tantas vezes ditaram as regras do universo da estética — estão agora desfazendo cirurgias plásticas e tratamentos? A resposta, acredito, vai muito além da superfície: não se trata apenas de remover harmonizações faciais ou próteses, mas de buscar um equilíbrio verdadeiro e evitar os excessos.

Se antes os pacientes chegavam aos consultórios empunhando fotos de influenciadores digitais ou exibindo os próprios rostos moldados por filtros irreais das redes sociais, quase como se pedissem: ‘Doutor, me transforme nisso aqui!’, hoje o pedido começa a mudar: mais sutileza, mais autenticidade. Seria o fim do “Está vendo essa foto? Faça igual!’? Tomara que sim.

Há algo de profundamente poético nesse movimento de reversão que me recorda o roteiro de A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. Na trama, o personagem principal vive uma transformação irreversível, uma metáfora poderosa sobre como a manipulação da aparência pode aprisionar a essência de alguém. Embora a realidade da estética atual não seja tão distópica, o risco de se desconectar da própria identidade ao seguir padrões idealizados permanece uma armadilha sutil.

Alguns de vocês podem até sugerir que essa busca pela essência seja apenas mais uma imposição social, tal como suspeita a jovem no supermercado. No entanto, o que percebo no consultório é algo crescente e genuíno. Observo com encantamento um movimento quase terapêutico: homens e, sobretudo, mulheres retomando o protagonismo sobre seus corpos, cedendo menos à pressão social e, acima de tudo, buscando a liberdade de serem quem realmente são. Uma jornada que, ouso dizer, vai muito além da estética e toca na essência. 

Entenda: a beleza verdadeira é menos sobre a superfície e mais sobre a sua verdade refletida em escolhas genuínas — sejam elas para reverter intervenções ou para realizá-las. Fundamental mesmo é assumir o protagonismo dessas decisões com profundo autoconhecimento, priorizando o bem-estar e a coerência com a própria essência.

*Cirurgião Plástico

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