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Domingo,12 de Janeiro

A lei do livro e a literatura para cegos

Jornal O Norte
Publicado em 22/04/2008 às 16:47.Atualizado em 15/11/2021 às 07:31.

Luiz Carlos Amorim


Escritor e editor



A Lei do livro, sancionada em 30 de outubro de 2003, instituiu uma “política nacional do livro”, e além de “assegurar ao cidadão o pleno exercício do direito de acesso e uso do livro; fomentar e apoiar a produção, a edição, a difusão, a distribuição e a comercialização do livro; estimular a produção intelectual dos escritores e autores brasileiros tanto de obras científicas como culturais; promover e incentivar o hábito da leitura; instalar e ampliar no País livrarias, bibliotecas e pontos de venda do livro; propiciar aos autores, editores, distribuidores e livreiros as condições necessárias ao cumprimento do disposto nesta Lei” e outros itens importantes, prometia, também “assegurar às pessoas com deficiência visual o acesso à leitura”.                         



Quando a regulamentação da Lei do livro entrar em vigor, (pois é, as coisas andam bem lentas, infelizmente), os deficientes visuais poderão ir a uma livraria ou outro ponto de venda para ter acesso aos livros do seu interesse, em vez de depender exclusivamente de doações do governo e outras instituições. Poderão, então, encomendar os títulos desejados. Li em algum lugar que “os próprios pontos de venda se encarregarão de fazer o pedido às editoras e, mais tarde, entregar os títulos em arquivos digitais que os clientes poderão levar embora e imprimir numa impressora Braille”. E pergunto: as pessoas cegas terão que imprimir em braile? Será que todas tem acesso à uma impressora desse tipo?



Esta é uma dificuldade que terá que ser solucionada, antes de qualquer coisa, para que este seja, de fato, um dos mais importantes avanços no acesso de cegos à leitura no Brasil.                          Isto me lembrou que um escritor amigo meu, de Balneário Camboriú, Enéas Athanázio, participou de uma antologia em braile, uma obra para pessoas especiais, para pessoas deficientes visuais.  E notem que o livro foi impresso em braile, e não entregue em arquivo para os leitores cegos imprimirem.



A antologia  “Blumenauaçu na Ponta dos Dedos” foi publicada pela Editora Cultura e Movimento e é pioneira em nosso estado: a coletânea tátil reúne trabalhos em verso e prosa de quinze escritores contemporâneos. A edição e impressão foram feitas pelo Centro de Difusão da Literatura para Cegos.



Um público específico, mas respeitável, os deficientes visuais tinham acesso, até agora, a poucas obras em braile, quase todos clássicos. Melhor do que nada, necessário até, mas eles não tinham acesso às letras da região, às obras de autores importantes e atuais de quem ouviam sobre o sucesso, sem ter como lê-los.



Isso me chamou a atenção, mais uma vez, sobre um fato cada vez mais evidente: a capacidade de aprendizado e de realização das pessoas especiais.



Numa entrevista que vi com deficientes visuais, foi marcante e oportuno o repórter abrir um livro em braile e mencionar que, para ele, aquelas eram simplesmente páginas em branco. Em contrapartida, colocou um livro impresso com texto e desenhos na frente de uma menina cega que, tocando-o, afirmou que também ela tinha diante de si páginas vazias. Mas trocando os livros, a menina cega começou a tatear as páginas em branco com uma rapidez e uma sofreguidão que dava idéia da importância de poder ler aquele livro.



Já está na hora de aceitarmos as pessoas especiais, de possibilitar-lhes acesso à literatura, ao conhecimento e à informação, de reconhecermos os especiais como especiais que são, capazes de ensinar-nos a sermos nós, os “normais”, mais humanos e mais felizes.

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