Quando o ano começará?

Frida e Pagu / 08/09/2020 - 00h01

O ano de 1968, no qual foi promulgado o Ato Institucional 5, foi “O Ano que não terminou”, livro de Zuenir Ventura, porque, em 13 de dezembro aconteceu um mau passo histórico autoritário. O AI5 ceifou vidas a partir da perda de direitos humanos, retirando jovens de circulação, e, apenas depois o Brasil soube quantos foram seus mortos: 434 pessoas. Tem livro, filme e farta documentação; virou história, e que não se repita.

Volto ao tema, porque a angústia veio me visitar. Foi um dia pesado, com sonolência fora de hora e sem conseguir dormir. Uma exaustão sem ter feito trabalho extenuante, e, dentro de mim uma falta de energia desconcertante. Junto com todas as más notícias, uma sensação de que algo ruim, fora do esperado estava por acontecer. Isso se chama ansiedade. A morte bate à porta. São muitas pessoas conhecidas que estão ou estiveram doentes de covid-19. A lista de mortos apresenta rostos conhecidos. O tempo vai avançando e famílias vão se esfacelando. A cada bofetada da peste macabra, tontos, buscamos recursos internos para melhorar, mas há momentos em que essas armas de defesa nos faltam.

O ano 2020 está no oitavo dia do seu nono mês, mas ainda não começou. Em janeiro, férias, em fevereiro, um Carnaval que não deveria ter acontecido, e em março confinamento. Entraram em cena o álcool gel, álcool 70º, água sanitária em várias diluições, para tudo, limpeza de superfícies e maçanetas, borrifo de água sanitária e álcool em feira e sapatos, desinfecção de veículos, medo, fuga, mortes, pavor. Virou moda haver muitas verdades, combater a ciência, ser contra a vacinação, receitar remédios sem efeito comprovado, negar fatos e números, criar teorias da conspiração, acusar sem provas.

Os meses começam e terminam, mas o ano não começa, de fato. O que chamávamos de normalidade não voltará. Uma nova normalidade, com medo e desconfiança está à disposição. Máscara obrigatória, num cenário obtuso de zumbis mascarados, mãos alcoolizadas, acentuação de TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo, pessoas estranhas, retraídas, desconfiadas, medrosas, são o que temos.  Todos são suspeitos de conter o coronavírus em suas gargantas. Quem sobreviverá? Novamente pergunto: quando 2020, enfim, começará?

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