O Natal do Sapateiro

Pilar Literário / 18/12/2020 - 00h34

Foi na época do czarismo na Rússia. Final do século 19 e início do século 20. O povo era ortodoxamente cristão. Lá, numa pequena aldeia russa, Nicolau, bem cedo, na véspera do Natal, levado pelos sons que enchiam o ar, pôs de lado suas ferramentas de sapateiro e saiu e vagueou pelas ruas da vila. Crianças sardentas e loiras envolvidas em cânticos, emoção e alegria fizeram Nicolau suspirar.

A nostalgia o alcançou. Antes de sua esposa falecer e seus filhos crescerem e se afastarem para longe, o Natal sempre fora muito especial. Agora, sozinho, para preencher o vazio, vivia fazendo sapatos, muitos sapatos. Sempre tinha algum pronto para qualquer tipo de freguês.

Nicolau chegou em casa, fechou a porta e pegou na prateleira a grande e bem usada Bíblia. Ele leu como José e Maria procuraram insistentemente um lugar para ficar e acabaram achando um cantinho numa estrebaria. Se tão somente eles tivessem vindo em minha casa, exclamou ele, eu alegremente teria dado a minha cama.

E continuou lendo o Evangelho, agora em Mateus 2, encantou-se ante os maravilhosos presentes que os magos levaram para Jesus. Aí ele exclamou: “Mas não tenho nenhum presente!”. Então, o seu rosto se iluminou com outra ideia. Tirou de uma caixa empoeirada um pequenino par de sapatos de couro, que lhe pareceu o melhor que ele já fizera. “Eu daria este para o menino Jesus”, disse ele.

Naquela noite, Nicolau sonhou que Jesus vinha a seu humilde lar e dizia: “Você desejou que eu viesse. Amanhã eu chegarei três vezes em sua casa. Mas preste muita atenção porque não lhe direi quem sou”.

Amanheceu o dia de Natal. Acordando desapontado, Nicolau achou que fora só um sonho, mas decidiu: “farei de conta que o sonho é real, mas como Jesus vai se apresentar? Como uma criancinha? Como um adulto? Como um carpinteiro ou como filho de Deus?”. Disse consigo mesmo: “vou observar cuidadosamente”.

Assim, limpou e arrumou a pequena casa até que tudo ficou brilhando. A rua, porém, continuava deserta, úmida e de um frio cortante. Só passou o cansado varredor de rua. Nicolau abriu bem a porta e disse: “Entre, entre! Tenho uma bebida quentinha e ela irá aquecê-lo”.

Disse-lhe o varredor: “Você hoje me confortou”.

Quando ele partiu, Nicolau preparou uma gostosa sopa e olhava outra vez a rua. Apareceu uma jovem cansada carregando um bebê. “Entre, entre. Tenho comida bem quentinha. E vou aquecer leite para o bebê”. E acrescentou: “Como não tem sapatos!”. Foi depressa ao armário, pegou os sapatinhos e disse: “Experimente este”

“Não tenho dinheiro”, disse a jovem mãe. O sapateiro ajustou os lindos sapatos nos pezinhos gelados do menino.

Bem mais tarde, um par de mendigos descia a rua. Nicolau os recebeu. “Espere aqui um minuto”, disse aos pedintes e trouxe-lhes grandes pedaços de pão.

Desceu a noite, Jesus não tinha vindo. Seu sonho seria só aqueles personagens? Deitou-se triste e sentiu-se solitário. Então, de súbito, uma voz lhe falou: “Você me aqueceu, você me alimentou, você me deu sapatinhos. Vim hoje a você em cada um daqueles a quem você ajudou”.

O coração de Nicolau quase se rompeu de alegria. Neste Natal, um simples favor ou atendimento pode colocar você na lista dos que agradaram a Jesus e ser considerado bendito para a vida eterna.

É um conto de Leon Tolstoy, condensado por Collen L. Reece no livro “Sonhando com a vida” e transcrito por Terezinha Campos.

 

 
 
 

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