Drummond: ‘A consciência do limite’

Pilar Literário / 31/12/2021 - 00h05

E agora, Timponi? E agora, Leila Maria?

Professoras do Departamento de Letras e de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), são escritoras com mais de 25 livros publicados, poetas, contistas, trovadoras, palestrantes, pesquisadoras da História Literária de Juiz de Fora e membros do Conselho de Curadores do MAMM, da LeiaJF e da Academia Juiz-forana de Letras, entre inúmeras outras atividades culturais.

Depois de uma pesquisa tão valorosa de um proveito cultural incontestável resta-me dividi-la com muitos leitores, que certamente farão dela objeto de estudo. Pesquisamos há longo tempo a literatura de Juiz de Fora, via nossa pesquisa História Literária de Juiz de Fora, e tudo que com ela se relaciona.

Assim, pela proximidade do ano de 2022, pelos 120 anos de Carlos Drummond de Andrade (Itabira/MG *31/10/1902 - 17/08/1987), lembramos que ele tem com a cidade um elo afetivo, uma relação de amor, que se faz não só em sua vida pessoal: sua mulher, Dolores, era de família juiz-forana. 

A obra de Drummond sempre mereceu ser relembrada ou por leituras conhecidas pela tradição crítica, como as elaboradas por Affonso Romano de Sant’Anna, ou por Silviano Santiago ou pelos enfoques multiculturais modernos e pela crítica genética. 

Nossa dificuldade em encontrar um fio para ler o amor em Drummond, já que existem várias análises literárias abordando sua obra, deve-se ao fato de ele ser um poeta completo: múltiplo (poderia até ser comparado aos heterônimos pessoanos); universal, pois, embora esteja sempre ligado a um contexto definido, aborda a complexidade humana em todas as suas facetas; e atemporal, já que até mesmo seus textos datados extrapolam a datação, como em suas crônicas sobre vestibular, greves de professores, posse de presidente, etc.

Essa pluralidade de possibilidades esbarra na aporia (dúvida) da crítica que sempre fica em dívida, que nunca esgota sua proposta e, por isso, é que, com Barthes, devemos empreender a fruição de Drummond, partindo do pressuposto de que o “plural triunfante” da obra literária não pode ser totalmente abarcado. 

Importa lembrar que Carlos Drummond de Andrade é um ícone do modernismo brasileiro. Poeta mineiro itabirano, tem frases antológicas tais como: “Quando nasci um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai Carlos, ser gauche na vida!” de “Poema de Sete Faces”, de seu livro “Alguma Poesia”; ou os dois versos do poema “Os poderes infernais”, de “A vida passada a limpo”, quando diz: “O meu amor é tudo que, morrendo,/não morre todo, e fica no ar, parado”. 
De seus vários livros selecionamos o “Amar se aprende amando”, do qual extraímos o poema:

“Amor”
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
Acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
Que à vida imprime cor, graça e sentido.
“Amor” - eu disse e floriu uma rosa
Embalsamando a tarde melodiosa
No canto mais oculto do jardim,
Mas seu perfume não chegou a mim. (p.1.043)

Um parecer geral sobre Drummond é o da professora Luciana Stegagno Picchio, a prefaciadora italiana de nosso livro “A trama poética de Murilo Mendes”, e brasilianista, em sua História da literatura brasileira, considera Drummond um poeta público e social: “um dos maiores poetas do Brasil do nosso século” e acrescenta: “Mineiro como Murilo em plano totalmente diferente, teve sua mitologia individual: porque durante anos Drummond exerceu como poucos no Brasil a função de porta-voz, ou, se quisermos, de consciência do Brasil. (p.553)



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