Se pedirmos a um grupo de pessoas para imaginar uma “casa” e descrevê-la depois de algum tempo, naturalmente, o proponente da questão, ao perguntar a cada pessoa do grupo como é a tal “casa” imaginada, colherá respostas bem diversas entre si. Uma dirá que pensou em uma casa de dois andares, com varanda na parte superior, janelas bem amplas. Outra dirá que pensou em uma casa “simples”, com apenas um andar, garagem coberta, mas com uma piscina pequena ao fundo. Uma terceira dirá que sua casa é de três quartos, sala, cozinha e banheiro.

Se tomarmos apenas a palavra “simples” e perguntarmos, novamente, às pessoas do grupo: “o que é uma casa ‘simples’?”, observaremos que as distinções conceituais serão diversas. Para uns, a casa “simples” é apenas uma casa “pequena”; para outros, a casa “simples” é apenas uma casa sem tantos móveis, ainda que “grande”; ainda outros dirão que a casa “simples” é uma casa de sapê trançado. Em linguística, chamamos a essa diversidade de sentido de “polissemia”, que é a característica que as palavras têm de significar vários sentidos.

O que pretendo demonstrar nesse simples modelo linguístico é que os conceitos dependem, sempre, de uma visão de mundo que adquirimos ao longo das nossas experiências de vida. A essa qualidade de vermos apenas parte das coisas e não as coisas todas, os filósofos chamam de “relativismo” ou de “perspectivismo”. Alguns julgam que somos incapazes da verdade porque é impossível darmos conta de todos os aspectos que permeiam determinada circunstância. Todavia, isso é uma verdade. 

Imagine todas as definições com as quais lidamos ao longo de nossa existência para tentarmos explicar minimamente o que somos. Pense na quantidade de ideias que permeiam a nossa mente todos os dias, em cada experiência nova vivenciada, em cada relacionamento com as situações e as pessoas. Pense, também, nos conceitos que temos de reconsiderar a partir do conhecimento que vamos adquirindo, de tempo em tempo, nos nossos estudos, nos relacionamentos pessoais, no conhecimento de novas culturas, e por meio da multidão de informações que nos cercam.

Todas essas estruturas moldam, dia a dia, o que chamamos de “cosmovisão” ou “visão de mundo”. Desta cosmovisão dependem todas as nossas demais estruturas de pensamento, de comportamento, de padronização que adotamos. É esta cosmovisão que fundamenta e dá substância às nossas crenças mais profundas. É esta cosmovisão que nos faz escolher entre uma coisa ou outra. Além do mais, as interpretações que temos do mundo ao nosso redor dependem, exclusivamente, de como vemos as coisas. Todas as concepções que as pessoas manifestam são frutos de uma “visão de mundo” que elas carregam.

A comparação entre cosmovisões é fundamental para definirmos qual delas responde, de modo mais satisfatório, às nossas dúvidas mais profundas. Se tivéssemos paciência e desejássemos, de fato, entender os dilemas humanos, voltaríamos nossas atenções para os modelos de visão de mundo com os quais lidamos diariamente. Antes de assumirmos apenas um lado e o defendermos com unhas e dentes, deveríamos exigir que a nossa visão de mundo responda aos problemas humanos. Se fizermos isso, veremos, com clareza, que muitas dessas visões que assumimos não passam de fumaça que apenas obnubilam nosso entendimento e, consequentemente, desviam a nossa ética. Eu acredito que muitos sairiam envergonhados por sustentarem ideias tão superficiais e insuficientes para responder ao menos “quem somos”.