Na língua portuguesa, há quatro usos possíveis do “porque”. Porque, junto e sem acento, é usado para respostas ou frases que indiquem causa ou explicação de algo com o valor de “pois” ou “uma vez que”. Por que, separado e sem acento, usado no início de frases interrogativas ou para substituir “por qual motivo” ou ainda “pelos quais”. Por quê, separado e com acento, é usado no final de frases interrogativas. E porquê, junto e com acento, usado como substantivo, significando “motivo”, “razão” e determinado por artigo, pronome, adjetivo ou numeral.

Ao longo da existência humana, todos esses porquês se reuniram a fim de buscar as causas primeiras e explicações de nossa identidade e de nosso estar-no-mundo. O motivo das coisas, a razão do que existe, os propósitos do ser sempre estiveram nos alicerces de todas as teorias filosóficas e teológicas. Por que, com que finalidade, e por que razão vivemos em um mundo regido por leis? Por que o mundo no qual vivemos é organizado e por que isso é fundamental na estrutura do que somos. Essa foi uma preocupação filosófica de Immanuel Kant.

O fato é que, a cada passo que damos nas descobertas racionais e naquelas que estão para além da razão, encontramos seres conscientes e decididos a procurar a razão e o sentido das coisas. E essa ansiedade pelo desejo de respostas é que alimenta nossa alma inquieta. A inquietude da alma sempre esteve presente na existência humana. E permanece seguramente a base do que garante o estarmos vivos. Sem a angústia transcendental que nos liga ao que é transcendental podemos nos considerar mortos.

Os salmistas de Israel, filhos de Corá, expressaram com exatidão o que significa esse passo angustiante transcendental da existência humana. Eles declararam: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmo 42.5,11; 43.5). Esperar, na linguagem dos salmistas, é admitir humilhante insuficiência e a ausência total de recursos para prover sentido por si mesmo. Para eles, “esperar em Deus” é cultivar a absoluta convicção de que, sem a presença e a intervenção do ser transcendente que dispõe, governa e dirige todas as coisas que existem, não é possível obter a segura satisfação da angústia.

A maior crise existencial na qual se coloca o homem é aquela em que ele supõe ser suficiente para dar conta de todos os dilemas que lhe aparecem. A tentativa inútil e cansativa de responder por vias naturais apenas, como pretende o naturalismo ou o racionalismo, ou, por outro lado, ignorar que há essências absolutas e princípios universais, como o existencialismo e o relativismo, obscurecem o caminho para o conhecimento. E a crise se estabelece exatamente em razão de que, nas palavras de Soren Kierkegaard, o finito não pode conter o infinito.

Por isso, os porquês sempre farão parte de nós, linguística ou existencialmente. Não podemos fugir da complexidade inquiridora de nossas almas. Além disso, as respostas propostas por teorias específicas sempre reduzem o problema da existência humana. E todo reducionismo é um atestado de falibilidade e insuficiência. Nenhuma teoria científica ou filosófica pode conter toda a realidade da existência. Como afirmou Roger Scruton, a pergunta “por quê?” não vai desaparecer por causa de uma teoria que a invalide ou a considere indevida. A negação de uma tese por uma teoria específica não implica, necessariamente, a inexistência da coisa negada. Como no ateísmo, o fato de se tentar negar a existência de Deus não implica que Deus de fato não exista. Ele pode existir, não obstante se queira provar que ele não exista.