O nome do texto não é ironia, é reconhecimento. Os pedintes estão de volta, numa população que desde menina me chama atenção. Eu brincava de pedir esmolas. Vestia-me como as mendigas daquele tempo, de pano na cabeça, com uma cesta de taquara com vários pacotinhos de coisas embrulhadas. Eram restos de comida, iguais aos que eu via ser dados e me penalizava. Já vi uma pessoa jogar dentro de um saco plástico uma sopa velha, fria e repulsiva, mas a pedinte a levou sem nojo.

A cada época um pedidor de esmolas se destaca aos meus olhos. Havia um jovem de uns 25 anos que, soube depois, era usuário de crack e tinha os cabelos descoloridos. Era bonito, introspectivo e usava uma espécie de mini coador de café de plástico para coletar as moedas. Há outro de cabelos e barbas brancos e longos que deve ter no máximo 50 anos. Curativos no pé e joelho, mostra-se com um ar hippie, zen e relaxado.

Vejo há meses um rapaz de trinta e poucos anos na saída do meu bairro. É baixo, moreno claro, avermelhado de sol, pele grossa, suada e gordurosa, camiseta e bermuda coloridas, e, encurvado, anda com dificuldade. Chega pela frente do carro parado no sinal, toca de leve no vidro com suas unhas grandes e sujas, e pede dinheiro. Tem um ar sofrido e lembra pessoa deficiente mental grave, pois sugere que não fala. Tem atrás de si um carrinho de suporte, talvez feito em casa. Nele estão seus pertences cobertos por um pano. Quando o motorista o ignora, segue adiante e passa ao próximo carro, pois são muitos. Caso abram a janela, estende a mão para receber sua esmola.

Roupa, carrinho e horário fervente fazem parte da estratégia. Após o almoço e sol rachando, o ar de sofrimento comove. O bairro é abastado e as pessoas, no ar-condicionado, adereço que poderia constrangê-las, estão indo para o trabalho. Em sentido contrário, logística não é a palavra adequada, mas, pela precisão e resultado do plano, é a melhor. Condoídos, para amolecer suas consciências, motoristas lhe dão moedas. Ele não esconde e mostra o que ganhou sem ostentação. Em poucos minutos enche a mão, e depois a sacola. Eu vi e contribuí. O mundo precisa ser mais afável com essas pessoas, e, para além de lhes dar esmolas, dar-lhes respeito e oportunidade.