O bom escritor nos faz ver com outros olhos aquilo que temos visto com olhos comuns. Por isso ele é diferente. Não por falar coisas que não entendemos para parecer inteligente às pessoas, mas por interagir conosco. Ele se empenha em afetar nossas emoções para que nos tornemos iguais a ele, sentindo o que ele sente, pensando o que pensa e vendo o que ele vê

Rodolfo Ilari, tradutor e prefaciador do excelente “Guia de Escrita”, de Steven Pinker, afirmou que “o papel do escritor não é ‘informar’, ‘comunicar’ ou ‘comentar’ fatos, mas mostrar as coisas do mundo”. Isso de certa forma me trouxe alívio. É que a exigência moderna é ter de parecer inteligente às pessoas e sempre apresentar algo que seja “relevante”. E para alcançar esse status de genialidade, você precisa ter a capacidade de falar sobre coisas que as pessoas supostamente não sabem ou não entendem.

Você já deve ter ouvido alguém elogiar um palestrante dizendo: “Ele é brilhante, muito inteligente! Que palestra! Que aula!”. Mas, se você perguntar para essa pessoa: “Você entendeu o que ele disse?”, quase sempre a resposta será “não”. Eu já fiz esse teste com algumas pessoas e posso afirmar para você que ele funciona. Eu mesmo provoquei, enquanto professor, situações de dizer coisas que a maioria de minha audiência não entendeu. Como eu sei disso? Fácil. Todo professor sabe quando precisa dizer coisas que ninguém entende para tentar fugir das questões difíceis. 

E nesse projeto de pseudogenialidade, há quem pense que falar difícil é pressuposto básico para comprovação de inteligência. É uma “maldição do conhecimento”, que se manifesta na incompreensibilidade dos manuais de aparelhos eletrônicos, bulas de remédio, e nas línguas de especialistas. Então, se você fala algo que ninguém consegue entender, você é um gênio. Mas se você trata de coisas que parecem normais, é possível que seja desprezado por parecer que está sendo superficial demais para uma geração de gente super inteligente que possui um milhão de causas para defender.

Steven Pinker escreveu que “a boa escrita pode inverter o modo de perceber o mundo”. E, em minha opinião, essa mágica de inversão acontece não porque falamos coisas que as pessoas não entendem, mas exatamente pelo contrário: é quando mostramos a elas que a obviedade do mundo nem sempre é percebida como precisa ser. Em outras palavras: o estilo – ou o modo de dizer as coisas – exerce poderosa influência no modo como a realidade é percebida pelo nosso leitor.

Um bom escritor sabe diversificar as palavras e, com isso, manipula também a perspectiva do leitor com imagens que se reproduzem na mente dele. O bom escritor sabe fingir a cena com o objetivo de capturar não apenas a atenção, mas a presença do outro. Ele traz o outro para perto de si e o afasta, se necessário for. Ele transporta o leitor para um mundo comum a ambos, mas tem a ilustre missão de surpreendê-lo com uma perspectiva ainda não contemplada.

O bom escritor nos faz ver com outros olhos aquilo que temos visto com olhos comuns. Por isso ele é diferente. Não por falar coisas que não entendemos para parecer inteligente às pessoas, mas por interagir conosco. Ele se empenha em afetar nossas emoções para que nos tornemos iguais a ele, sentindo o que ele sente, pensando o que pensa e vendo o que ele vê. Tudo isso sem tirar de nós a autonomia de ser quem somos e sem nos obrigar a pensar como ele pensa. A intenção é diálogo, equidade. Esse é o desafio do escritor.