Lidar com a incerteza do futuro é um dos maiores dramas que experimentamos. Diariamente somos confrontados com a realidade do ontem e do amanhã. Não é nada fácil ter de conviver com a ansiedade, tanto com a dor do passado quanto com o temor do amanhã, e olhar para frente e ver a morte, que quase sempre significa para muitos a falência de tudo – dos sonhos, projetos e dos relacionamentos. O desejo de estar vivo parece ter de competir todos os dias com a sombra da morte. 

Envelhecer é uma tensão contínua, porque revela o quanto somos falíveis e o quanto morremos todos os dias. Tudo em nós parece morrer. As células e as esperanças. Ao olharmos para a corrupção ao nosso redor, a experiência parece nos indicar que qualquer tentativa de solução é mera utopia. Experimentamos a finitude das coisas e a nossa própria nas mínimas e mais simples atividades cotidianas. Por vezes, tentamos esconder o medo, fingindo que a morte não existe e que o futuro não é discutível. Tornamo-nos cada dia mais dependentes uns dos outros.

Essa relação entre o finito que somos e o infinito que desejamos é sempre de conflito, discutida pelas religiões e pela filosofia há séculos. No Antigo Israel, por exemplo, a descrição das carências humanas é frequente. No salmo 90, cuja autoria é atribuída a Moisés, príncipe do Egito e posteriormente libertador do povo de Israel da escravidão, deixa claro a falência diária do homem: “Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta; neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Sl 90.10). Somos todos como um “breve pensamento” (Sl 90.9).

No Cristianismo, o apóstolo Tiago, irmão de Jesus Cristo, também disse que não devemos fazer planos sem nos submetermos à vontade de Deus, simplesmente porque somos falíveis. Não podemos dar certeza às coisas. Não podemos garantir que as nossas certezas circunstanciais nos salvarão. “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por um instante e logo se dissipa” (Tg 4.14).

Somos neblina. E como nuvens que passam, carecemos de algo, para além de nós, que nos dê a certeza que nos fundamente para o presente e para o futuro. Para os cristãos, essa certeza é a pessoa encarnada do próprio Deus, Jesus Cristo. A arrogância acadêmica e intelectual não nos salvará. A soberba científica já nos mostrou, na Segunda Guerra Mundial, que o problema não está nos laboratórios ou nos microscópios, mas no coração do homem. Não são as armas que matam, mas a cobiça desenfreada da alma. Não é o outro que é o meu inferno, sou eu mesmo, porque é do meu coração que procedem as corrupções que alimentam a sociedade. O futuro só é possível, nas palavras de Agostinho, quando o nosso coração encontrar repouso no Senhor. Jesus disse: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.40). E “quem crê em mim tem a vida eterna” (João 6.47).

(*) Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil; Professor Efetivo do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG