Interpretar é saber ler (mnemonicamente: ligar, explicar e reunir) de modo linguístico (palavras) e não linguístico (imagens) tudo o que aparece diante de nós (fenômenos), que constitui e afeta nossa realidade, seja a expressão de alguém, um grito, um gosto, uma receita de bolo, uma bula de remédio, um problema de matemática, um livro do Harry Potter ou um sonho.

Interpretar é um trabalho árduo que exige do intérprete certo comportamento determinado e muito esforço. Deve haver um comprometimento contínuo para ir além do óbvio, embora o óbvio quase sempre constitua parte do que é revelado. Mas não somente isso. O intérprete terá de lutar contra vícios comuns de nossa cultura, como o contentamento com a superficialidade, e deverá se disciplinar quanto a práticas pouco utilizadas pela maioria das pessoas, como o hábito de refletir.

Infelizmente, não temos tantos bons leitores e intérpretes. A grande maioria é de apenas leitores primários, que são aqueles que leem superficialmente, os “literariamente iletrados”, nos termos de C.S.Lewis. Poucos são os que têm métodos de leitura e interpretação e poucos são os que de fato se interessam e se preocupam em pensar os fatos que lhes são apresentados todos os dias em certo lugar e momento. 

Nesse caso, não apenas maus leitores de palavras, mas de realidades. Por isso, quase sempre vazios de esperanças. Porque interpretar é ir além da forma, pois “todos os grandiosos poemas foram feitos por homens que valorizavam algo muito mais do que a poesia” (C. S. Lewis). 

De que modo, então, nos tornamos capazes de interpretar mais profundamente? Não é simplesmente impossível darmos conta de conhecer integralmente o que está diante de nós? Sim, é impossível. Nunca teremos condições de decodificar tudo plenamente. Somos humanamente limitados e precisamos de humildade para reconhecer isso. Muitas vezes, e não é incomum, teremos dificuldades extremas. Mas não podemos desistir.

A peregrinação do intérprete, portanto, deve ser constante. Interpretar é uma arte; portanto, há beleza e técnica. Em sua beleza, deve ser contemplada; em sua arte, aprendida e aprimorada. É necessário preencher conscientemente nosso “conhecimento de mundo”, nossas vivências, aquilo que assimilamos, aprendemos e vivemos e que constitui nossa base afetiva. Devemos ler os textos e os fatos. É a partir dessa base de leitura afetiva que impõe perplexidade em nossos sentidos que construímos nossa base de saber. É a partir da leitura, da explicação e da reunião de fatos que aprendemos a degustar o prazer do texto e dos fatos.