Montes Claros assinou, há dez anos, um documento do Ministério do Meio Ambiente intitulado “Criança no Lixo, Nunca Mais”. Nesse compromisso, o município assumiu a garantia de vagas nas escolas para as crianças, a promoção de atividades de complementação escolar e o desenvolvimento de programas de saúde e nutrição.

Por um tempo, o compromisso foi cumprido. No entanto, o cenário no aterro sanitário da cidade, o antigo lixão, revela uma triste realidade: várias famílias ainda vivem no entorno dessa área, considerada extremamente insalubre e inadequada.

Dezenas de famílias, com grande número de crianças e idosos, continuam vivendo em condições sub-humanas no depósito da BR-365. Retrato social que assusta.

Cinco anos após a assinatura do documento, o então prefeito Ruy Muniz assinou contrato com a empresa Viasolo e o município passou a fazer uso do aterro construído na região de Mimoso.

Mas os problemas persistem e não há uma resposta do município para a situação. Resposta que dona Rosineide Nunes dos Santos, natural da comunidade de Remanso, em Itacarambi, espera.

“Cobra e escorpião aqui é mato, mas Deus ainda tem nos guardado. É Ele mesmo que nos ajuda, porque o trem é feio. A gente necessita mesmo é de saúde, paz”, afirma a mulher que vive no local há dez anos.

Na companhia de três filhos e dois netos, e com mais dois para chegar, sobrevive com enormes dificuldades. “Aqui já foi melhor para tirar o sustento. Hoje é pouca coisa. Para conseguir uma carga de PET é preciso trabalhar quase um mês e meio”, relata a moradora.
 
PRECARIEDADE
Também dentro da área do aterro sanitário, onde aves que se alimentam de carne em putrefação indicam a presença de muita matéria orgânica e não apenas entulhos, reside dona Elenita Oliveira Sampaio, natural de Feira de Santana (BA).

De modo improvisado, habita em condições precárias com três filhas e quatro dos 26 netos. “A situação está mais difícil ainda, porque não conseguimos reciclar quase nada”, conta. 

Contudo, ao contrário da vizinha Rosineide, que teme pelas doenças que a família pode ter ao viver em tal ambiente, dona Elenita se diz tranquila. “Não tenho receio de contrair doenças, porque foi aqui que criei cinco filhos desde pequenos. Hoje tem um que tem mais de 40 anos”, afirma.

OUTROS FINS – Caminhão da prefeitura chega lotado de poda, indicando que o depósito não recebe só entulho

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Famílias receberam casas, mas voltaram
A situação grave dessas famílias que vivem no antigo lixão de Montes Claros se repete em várias cidades brasileiras. É um drama que o país ainda não conseguiu solucionar.

O NORTE foi à sede da Secretaria de Desenvolvimento Social, mas o titular Aurindo Ribeiro estava em viagem, o mesmo ocorrendo com relação ao seu substituto eventual.

Mas a coordenadora do programa “Minha Casa, Minha Vida”, Lucileide Pereira, assegurou que o município acompanha a realidade no local.

“Nós estamos acompanhando, mas 90% dos que ocupam a área já foram contemplados com habitação popular através do programa, se desfizeram do imóvel e retornaram ao lixão”, contou Lucileide.

Ela ressaltou que, “como essas famílias já foram contempladas, a legislação fala que uma vez favorecida com habitação social, não tem direito a outra casa”. Garantiu que todas as famílias que ocupam área conhecida como “Palmital” foram cadastradas e são acompanhadas pela secretaria.

“Tanto é verdade que estamos montando um projeto de ações de intervenções”, informou.

Em função do alto risco à saúde que o ambiente do lixão representa para quem vive nele, O NORTE entrou em contato com Dulce Pimenta, titular da Secretaria Municipal de Saúde.

O objetivo era saber que tipo de ações a pasta realiza junto aos moradores do lixão para evitar contaminações e doenças, se recebem visitas dos agentes de saúde e se há um levantamento de quais os principais problemas de saúde aquela população enfrenta.

No entanto, a reportagem não recebeu a resposta até o fechamento desta edição.

CONDIÇÕES SUB-HUMANAS – Dezenas de famílias ainda vivem na área do lixão de MOC, sobrevivendo como catadores de recicláveis

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