A morte de Mestre Zanza, aos 88 anos, fez mais do que deixar Montes Claros de luto. A cidade ficou órfã de um homem que durante toda a vida destacou-se pela firmeza em manter tradições. João Pimenta dos Santos - nome de batismo de um dos principais líderes das manifestações folclóricas do município - foi vítima de complicações da diabetes. Atendendo a um pedido do próprio Mestre Zanza, a família realiza o velório na Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, presidida por ele e onde morava, há 35 anos.

Mestre Zanza passou mal na quinta-feira, 21. Foi levado ao hospital e, voltando para casa, disse que queria ser velado ali. Na manhã de ontem, o filho Júnior, que morava com ele, percebeu que o pai havia falecido. 

Durante o velório, muitas homenagens: apresentações do Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros; do 1º Grupo de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, que Mestre Zanza chefiava; do 2º Grupo de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, chefiado pelo Mestre Yuri Faria, neto do Mestre João Faria, já falecido; do Grupo de Catopês de São Benedito, chefiado pelo Mestre Wanderley, filho do também saudoso Mestre José Expedito Cardoso do Nascimento (Mestre Zé Expedito); da 1ª Marujada de Montes Claros, chefiada pelo Mestre Tim; da 2ª Marujada de Montes Claros, chefiada pelo Mestre Zé Hermínio, e do Grupo de Caboclinhos ou Caboclada de Montes Claros, chefiada pela Cacicona Socorro, filha do Mestre Joaquim Poló.

Mestre Zanza tinha incontáveis admiradores e amigos. Entre eles, a reitora da Funorte, a médica e pedagoga Raquel Muniz, que nascida nos Morrinhos, terra de catopês, cablocos e marujos, desde pequena acompanhava o movimento das Festas de Agosto. Sempre presente na vida do Mestre Zanza, fazia questão de vestir a “farda” de catopê e, como um soldado, percorrer as ruas da cidade, junto com o Mestre que fazia reviver tradições por meio do batuque dos tambores. Para ela, a perda é irreparável.

“Mestre Zanza me viu crescer. E eu cresci encantada por ele, pelas fitas coloridas, penachos, cantos e ritmos dos pandeiros e tambores de catopês, marujos e caboclinhos. Perder Mestre Zanza é, portanto, perder um pouco da minha história”, diz Raquel (leia mais na página ao lado). 

Para o médico e artista plástico Carlos Muniz, ex-secretário de Cultura, Mestre Zanza partiu, porém deixou o nome marcado nesta terra. “Quando lembro do Mestre Zanza, sinto muita alegria, principalmente das grandes reuniões que fazíamos antes dos festivais folclóricos, festa de tantos anos de tradição na nossa cidade. Me encontrava com ele e os outros mestres na secretaria de Cultura. A gente discutia como seria a festa, ele sempre presente, dando opiniões. Tinha muito carinho por ele”.

Gerente de Preservação e Promoção do Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, Raquel Mendonça diz que as Festas de Agosto são a maior e mais importante manifestação cultural, popular e tradicional da cidade. Iniciada em 1839 por Marcelino Alves, em cumprimento de uma promessa, está em processo de Registro como Bem Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e o Divino Espírito Santo vão receber Mestre Zanza em uma festa muito especial lá no céu”, afirma.

 

 

Montes Claros perdeu na manhã de hoje um de seus ícones. Mestre Zanza sempre foi um pouco da essência da nossa gente, dos nossos costumes e, sobretudo, da nossa cultura. Mas para além de tudo isso, Mestre Zanza era um amigo querido, que embora eternizado por toda a história que construiu, vai deixar saudades e um buraco imenso na nossa cultura. 

Sem dúvidas, os festejos de agosto perderão um pouco do seu brilho, sem a presença marcante desse sertanejo que sempre honrou nossas tradições. Mas pela memória dele e de tantos outros mestres que carregaram com altivez, alegria e orgulho as bandeiras de marujos, caboclinhos e catopês, as Festas de Agosto precisam se perpetuar. 

Vá em paz, Mestre Zanza, todos nós, montes-clarenses, cuidaremos do seu legado cultural.

Aos familiares de Mestre Zanza, o nosso abraço fraterno, nesse momento de dor”
 
Ruy Muniz

 

“Ficaremos, todos nós, montes-clarenses, meio órfãos com a partida repentina do nosso eterno Mestre. Mas, sem dúvidas, ele está eternizado na história de Montes Claros, e a cada ano, quando a cidade se vestir de fitas coloridas para receber as Festas de Agosto, Mestre Zanza reviverá no toque dos tambores, nos cortejos, nas rezas, nas canções e, sobretudo, em nossos corações. Mestre Zanza, foi uma honra partilhar da sua amizade, segui-lo nos cortejos, eternizar nossas tradições com você”
 
Raquel Muniz

 

“Quando lembro do Mestre Zanza, sinto muita alegria. A gente discutia como seria a festa, ele sempre presente, dando opiniões”
 Carlos Muniz, médico, artista plástico e ex-secretário de Cultura

 

“Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e o Divino Espírito Santo vão receber Mestre Zanza em uma festa muito especial lá no céu”
Raquel Mendonça, gerente de Preservação e Promoção do Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura

 

 

Vim da roça em 1968, lá do Gorutuba, longe, longe, e o trajeto até Janaúba era feito de carro de boi, durando um dia inteiro. Depois pegava o trem para Montes Claros, lento, quase como o transporte no percurso anterior. Nas paradas, em terminais ao longo do trajeto, gente, bichos e malas eram acomodados. Ninguém tinha pressa. A vida era devagar. Vim para estudar. Morava na casa de minha tia Negrinha (Maria de Jesus), na rua Teofilo Otone, n. 50, no bairro Roxo Verde. Ali, a cem metros da linha férrea. Rua de cascalho, de saudosas “peladas” , onde aprendi a jogar bola e a curar feridas na cabeça do dedão do pé, lacerada por alguma pedra, com a junção de urina própria e terra. Resistência orgânica de verdade, feita desses emplastros naturais, que se não matassem, nos guardariam de todos os males para sempre, amém. Daí o enfrentamento de doenças tantas, desde sarampo até a peste chinesa, sem grandes sobressaltos. A vida tranquila de então só era alterada quando se aproximava o mês de agosto. Ao lado da nossa casa, morava o Sr. José Aristides, um homem gentil, trabalhador na Central do Brasil. Era muito querido por todos. Todos os anos sua casa era tomada pelos catopês, que coordenava, e o barulho de tambores e cantorias enchia a rua. Na mesma rua, na esquina, a poucos metros, o Sr. Anibal coordenava a Marujada. Tudo era tomado por gente e fitas, tambores e músicas, espadas, guerreiros em batalhas lúdicas, e a meninada acompanhando os ensaios. A formação do povo brasileiro simbolizada naqueles festejos - brancos, índios e negros. Não éramos divididos por ideologias. Somente brasileiros, todos. Que tempo bom! Na verdade, naquele tempo achávamos tão naturais aquelas manifestações folclóricas que nem dávamos a importância merecida. No dia da festa, em Agosto, todos os marujos e catopês, mais Caboclinhos, reuniam-se, desfilando pelas ruas poerentas de Montes Claros, em homenagem ao Divino, São Benedito e Nossa Senhora. Não havia patrocínio público. Tudo feito com esforço pessoal dos festeiros, especialmente dos mestres, que eram os coordenadores. Veio o tempo com suas tenazes. Morreram Anibal e Zé Aristides, há décadas. Mestre Zanza manteve a tradição, junto a outros. Houve reconhecimento público deste patrimônio cultural da cidade, enfim. A marujada, Catopês e Caboclinhos continuam enfeitando e alegrando o mês de Agosto na nossa cidade. Agora, com o passamento de Mestre Zanza, que seu trabalho e dedicação sejam heranças permanentes de outros festeiros, mantendo viva a memória, não apenas dele, mas de todos os que, como ele, guardaram a tradição até estes tempos. Descanse em paz, Mestre Zanza! Aqui, o barulho dos tambores, em agosto, vai certificar sua pessoa e seu legado, “ad perpetuam rei memoriam”.
 
Dr Isaias Caldeira Veloso, juiz de Direito em Montes Claros