Depois de ser denunciado por assédio sexual, assédio moral, importunação sexual e práticas de improbidade administrativa, o presidente da MCTrans, José Wílson Guimarães (Brizola), deixou o cargo nesta quarta-feira.

O gestor chegou a dizer, em entrevista divulgada na noite de terça-feira, que desafiaria qualquer servidor do órgão a provar algo contra ele. Em caso afirmativo, ele renunciaria ao cargo.

Menos de 24 horas depois da declaração, Brizola enviou comunicado à imprensa sobre seu afastamento. Segundo ele, isso foi feito “para que as investigações prossigam sem nenhum problema”.

As denúncias contra o então presidente da MCTrans foram feitas no Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) e vieram à tona por meio de nota emitida pelo órgão.

Até o momento, nove pessoas já denunciaram o secretário municipal, sendo sete denúncias de mulheres e duas de homens, todos funcionários ou ex-funcionários de José Wílson.

As provas, que incluem prints e áudios de conversa, foram apresentadas pelos denunciantes ao CRDH que, após o acolhimento e orientação às vítimas, encaminhou o material e protocolou denúncias nos órgãos públicos competentes para apuração.
 
PRÁTICA COMUM
De acordo com as denúncias, “seria uma prática cotidiana do presidente da empresa assediar e importunar sexualmente servidoras públicas da MCTrans, assim como mulheres contratadas por ele para serem suas assessoras ou secretárias”.

O documento aponta que o presidente usava de um suposto poder conferido pelo cargo para oferecer emprego e promoção às vítimas em troca de favores sexuais e temporadas em casa de praia. Como elas não cediam ao assédio, logo eram demitidas ou rebaixadas, com corte de salário ou transferência para outro setor, quando efetivas.

A vereadora Iara Pimentel, presidente da Comissão de Segurança e Direitos Humanos, recebeu as denúncias do CRDH e promete acompanhar o caso.

“Estou solicitando à Corregedoria do Município que abra um processo administrativo disciplinar para apurar os fatos. Presto a minha solidariedade a todos os trabalhadores e trabalhadoras da MCTrans, em especial aqueles que tiveram coragem de fazer a denúncia”.

Sobre o afastamento do presidente, Iara alertou que “nada muda”. “O processo continua e nós vamos acompanhar inclusive para saber como será este afastamento, se com a suspensão do salário do secretário, que é o correto”, pontuou.

SAIBA MAIS
Uma das vítimas, em conversa com a reportagem de O NORTE, disse que eram constantes os gracejos e comentários sobre o corpo e vestimentas que as funcionárias usavam, até com sugestão de dietas para se enquadrarem no “padrão que ele gostava”.

“Ele fazia estes comentários como se fosse uma coisa normal. Me constrangia. Um dia deixei claro a ele que não gostava, sou uma mulher casada e não dei espaço para esse tipo de situação. A partir daí, ele parou. Mas, infelizmente, no ano passado voltou a acontecer. Um colega disse que ele era assim mesmo, que era normal aquilo e que ele sempre falava com todas daquela maneira. Ele é nojento. Passei a ser até grosseira com outros colegas, mas é uma defesa que a gente cria para fugir de assédio”, lamentou Maria (nome fictício).

De acordo com a vítima, nem as meninas do “Menor Aprendiz” escapavam. “Elas fugiam, evitavam encontrar com ele, porque precisavam do emprego, mas eram constantemente assediadas. A rotatividade é muito alta lá por causa disso. Ele não consegue o objetivo e demite as funcionárias. Ele dizia que o prefeito almoçava com ele em sua mesa e que ele era a maior autoridade deste município e mandava até mais do que o prefeito”, disse a funcionária.

Maria conta que reuniu forças para se juntar às outras denunciantes e procurar o Centro de Direitos Humanos, mas temendo retaliação. Só se sentiu segura ao saber que poderia manter o anonimato. “Esperamos que a justiça seja feita, que ele pague pelos crimes, porque é essa falta de impunidade que muitas vezes desanima as mulheres e leva pessoas como ele a continuar com este comportamento”.
 
RESPOSTAS
Até o final da tarde desta quarta-feira, o prefeito Humberto Souto ainda não havia se pronunciado sobre as acusações contra o presidente da MCTrans. Procurado pela reportagem, José Wílson Guimarães não retornou às ligações até o fechamento da edição.