Moradores de Montes Claros foram surpreendidos na manhã de ontem pela paralisação parcial do transporte coletivo urbano. Funcionários de uma das empresas que compõem o consórcio MocBus fizeram uma manifestação contra a falta de pagamento de vários direitos, como o vale-refeição. Por cerca de três horas, ônibus de várias linhas que atendem a regiões diferentes da cidade ficaram sem circular. Como consequência, pontos de embarque lotados e passageiros revoltados.

Sem o transporte funcionando, muita gente chegou atrasado ao trabalho, correndo o risco de ser penalizado; outros perderam consultas marcadas; e muitos compromissos tiveram que ser adiados. A paralisação dos trabalhadores gerou prejuízo para quem precisou desembolsar valores mais altos que a passagem para chegar ao destino.

Foi o caso de Isabel Martins, funcionária de uma empresa sediada no bairro Vila Brasília. Todos os dias ela pega o ônibus em um ponto do bairro Santa Rafaela às 8h05. Mas ontem teve que desembolsar mais para conseguir chegar no horário.

“Eu estava no ponto aguardando quando li nas redes sociais que os ônibus não iriam circular porque os motoristas estariam em greve. Imediatamente, chamei um aplicativo para não perder o horário. Na primeira chamada o valor da corrida estava em R$ 23. Esperei um pouco até abaixar o preço e, mais tarde, consegui um carro pela metade do valor. Mas, ainda assim, quatro vezes mais caro do que a passagem que eu pago diariamente. Ainda bem que eu estava com dinheiro no bolso, mas, e se não estivesse? Poderia perder o serviço”, reclama Isabel.

Já Wanderlande Alves, morador do bairro Renascença, tinha consulta marcada às 9h no centro da cidade. Depois de esperar por 30 minutos no ponto, desistiu e voltou para casa. “Fiquei meia hora aguardando no ponto da avenida Minas Gerais e nada de o ônibus passar. Vi pelas redes sociais que estava acontecendo uma paralisação e desisti. Não chegaria a tempo. Prejuízo não posso dizer se tive, porque pode ser que eu consiga retornar à tarde para consultar”, disse. 

Em um vídeo divulgado na internet, um dos funcionários da empresa que participou do movimento diz: “Ninguém entra e ninguém sai. Temos colegas passando fome. Estamos naportadaempresareivindicandonossosdireitos.Há seis meses não recebemos o tíquete alimentação e querem nos enganar com uma cesta básica de R$ 60”.

De acordo com Jaqueline Camelo, gerente da Associação de Transporte Coletivo de Montes Claros (ATCMC), a cidade possui 40 linhas em circulação, somadas as duas empresas, e em rotas diferenciadas. A paralisação dos trabalhadores seria reflexo do imbróglio entre a prefeitura e o Consórcio MocBus, que vem se arrastando desde o início da pandemia.

Batalha travada entre empresas e a prefeitura 
De acordo com representantes do consórcio, a prefeitura, por meio da MCTrans, se recusa a tratar da situação de crise no setor provocada pelo novo coronavírus e não busca alternativas para minimizar o impacto financeiro nos cofres das empresas. Esse quadro acaba inviabilizando a manutenção de serviços e folha de pagamento.

“A demanda está em43% do período normal e o déficit mensal está, em média, em R$ 700 mil. Já temos um déficit acumulado de R$ 5 milhões somente do período da pandemia e mais R$7 milhões por desequilíbrio econômico-financeiro da concessão, devido aos investimentos e à demanda projetada, que nunca foi alcançada, totalizando R$ 12 milhões de déficit até 31 de julho. Este valor aumenta diariamente”, disse o engenheiro técnico do Consórcio MocBus, Antônio Carlos Marchezetti.

O presidente do Sindicato dos Motoristas do Transporte Coletivo de Montes Claros não atendeu as ligações. O procurador do Município, Otávio Rocha, também não foi encontrado para falar sobre o assunto.

ACORDO
A empresa que teve o serviço paralisado informou, por meio de nota, que conseguiu fazer um acordo com os funcionários para pagamento parcelado do tíquete e eles voltaram ao trabalho às 9h. A empresa ressalta, no entanto, que “com o prolongamento da pandemia, não é possível descartar novas ocorrências semelhantes, caso persista a omissão da Administração Municipal em adotar medidas efetivas”.

“Diante dessa situação, que não foi enfrentada pela administração municipal com medidas concretas, o serviço de transporte coletivo de Montes Claros está à beira de um colapso, pois o valor arrecadado com a venda das passagens não é suficiente para fazer frente aos custos da operação, como vem sendo alertado pelas empresas há vários meses”, trouxe a nota.

Ainda no texto, a empresa alega que tem priorizado o pagamento dos salários dos empregados e do óleo diesel, atrasando, eventualmente, o pagamento de outras obrigações, dentre elas o tíquete alimentação. O benefício não é repassado desde março.