A inflação em Montes Claros em 2020 foi quase o dobro do índice estipulado pelo governo federal. A taxa chegou a 8,41% nos 12 meses, contra projeção oficial de 4,39%. O peso no bolso do consumidor foi muito grande, porque as maiores variações foram encontradas nos alimentos. Muitas famílias tiveram que rever a lista do supermercado e do sacolão, principalmente aquelas que tiveram o orçamento familiar afetado pela pandemia – ou por demissão ou por redução do salário.

O índice anual foi também bem superior ao registrado em 2019, quando a inflação na cidade ficou em 5,37%. “Isso significa que as famílias montes-clarenses que têm rendimento entre um e seis salários mínimos tiveram que gastar muito mais para poder comprar os mesmos itens que elas consumiam no ano anterior. E sabendo que foi um ano com uma série de dificuldades por causa da pandemia da Covid-19, em que muitas pessoas perderam seus postos de trabalho, outros tiveram redução de renda, isso quer dizer que essas famílias tiveram que reduzir o consumo”, afirma a economista Vânia Silva Vilas Boas Vieira Lopes, responsável pela coordenação e análise do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de Montes Claros da Unimontes.

O grupo de alimentos teve uma variação de 15,07% no ano, seguido por habitação (8,44%), saúde e cuidados pessoais (5,96%) e artigos de residência (4,92%). Os únicos grupos que tiveram retração em 2020 foram vestuário (-1,33%) e transporte e comunicação (-0,21%). A evolução do IPC mostra que ele foi aumentando a cada mês, registrando a maior taxa em dezembro.

No último mês do ano, o IPC bateu a marca de 1,05%, ficando acima dos 0,93% registrados em novembro. Contribuíram para esse aumento a alta em preços dos alimentos (1,22% a média do grupo), da energia elétrica (14,24%) e da passagem do transporte público (12,28%) em Montes Claros, reajustada em 20 de dezembro. 
 
MESA CARA
Entre os vilões da mesa do consumidor estão a banana caturra (22,95%), o feijão (7,31%) e a carne bovina (6,28%). Também sofreram reajustes o leite (2,6%), o açúcar (2,39%) e o óleo de soja (2,42%), alimentos considerados básicos para a família.

“Verificamos que em dezembro a alimentação foi o grupo de maior peso para a inflação. Isso implica que, em Montes Claros, mais de 35% do orçamento das famílias foi gasto com alimentação – item que também teve a maior variação percentual durante o ano”, explica Vânia Vilas Boas.

Para o aposentado Antônio Teixeira Barbosa, de 69 anos, 2020 foi um ano muito difícil. “O preço de itens alimentares estava sempre subindo. Ainda temos outras despesas, como farmácia, combustível, exames, que também tiveram aumento de preço. Tive que me organizar financeiramente”, afirma.

Para Antônio, 2021 começou ainda com variação nos preços no supermercado. Com certeza, teremos mais um ano de dificuldades. O planejamento orçamentário será essencial para mantermos o equilíbrio e superar essa inflação”, destaca.

A análise do aposentado está correta. Segundo Vânia Vilas Boas, 2021 apresenta uma conjuntura que indica que haverá algumas dificuldades, principalmente no primeiro trimestre. 

“O próprio Banco Central já prevê uma inflação de 3,75% para o ano, com intervalo de 1,5%. Verificamos que isso é em função dessa nova onda da pandemia que assola não só o Brasil, mas também o mundo. Isso afeta as negociações, nossa balança de pagamento e as exportações, podendo paralisar alguns setores. Já vemos estados fazendo lockdown, determinando um distanciamento maior, o que pode gerar mais desemprego e, consequentemente, uma redução de consumo”, analisa a economista da Unimontes.


Safra pode gerar alívio
A previsão para esse primeiro momento de 2021 é de continuidade da inflação elevada. “Temos que aguardar para ver quais serão as medidas econômicas adotadas pelo governo para tentar frear os impactos provocados pelo vírus”, ressalta Vânia.

O cenário ainda é de insegurança e incertezas, o que favorece as altas de preços. “O preço está altíssimo. A cesta básica quase que triplicou ao longo dos meses. Se fazíamos feira de itens básicos em novembro, em dezembro vimos esse valor nas alturas. Um pacote de arroz, que custava em torno de R$ 15, subiu para R$ 27”, lamenta a pedagoga Mayounara Soares, de 36 anos.

Ela espera que, neste ano, mesmo com toda a dificuldade que se apresenta, que venham melhoras. “E que consigamos pelo menos nos alimentar bem. O salário sobe pouco, enquanto a inflação sobe mais de 100%”, compara.

A expectativa, segundo Vânia Vilas Boas, é a de que a previsão de safras recordes, a partir de fevereiro, possa trazer preços mais competitivos no mercado para reduzir o processo inflacionário.