O estudante do ensino médio C. H. F., de 15 anos, vê o sonho de se tornar um profissional da Gastronomia ameaçado. Ele é um dos moradores do Conjunto Habitacional Monte Sião I que sofre as dificuldades de não ter transporte escolar oferecido pelo município. Como O NORTE mostrou na edição de ontem, desde 2017 o serviço foi suspenso pela Prefeitura de Montes Claros, prejudicando cerca de 1.200 alunos da rede estadual dos conjuntos habitacionais Monte Sião I, Monte Sião IV e Minas Gerais.

A falta dos ônibus para levar os estudantes até as escolas tem gerado vários impactos, como aumento da evasão escolar e até mesmo da reprovação. Tendo que andar por até quatro quilômetros para chegar até as unidades de ensino, muitos alunos viram o rendimento cair ou até mesmo desistiram do estudo.

No caso do C. H. F., a surpresa chegou no fim do ano passado. Apesar de fazer muitos sacrifícios para estudar, ele recebeu um comunicado da escola de que teria que ser reavaliado.

“O diretor disse que teria uma prova de reclassificação para quem tinha muita falta. Eu e meus colegas ficamos muito nervosos e questionamos o professor. Alguns foram reprovados porque não tinham nota, mas não é justo não passar de ano por causa de falta. Não foi por nossa culpa. Nós não temos os ônibus e minha mãe não tem condição de pagar um escolar”, contou Caio, que se viu em uma situação frustrante.

Depois de contestar a decisão da escola, o adolescente foi informado de que a situação seria avaliada e, caso houvesse necessidade, ele seria chamado a fazer a prova.

“Até agora não chamaram. Considero que passei de ano e estou matriculado para 2020. Mas a minha mãe disse que talvez precise buscar outro lugar, pois não temos condição de arcar com este custo e a escola é muito distante”, lamentou.

FORÇA COMPARTILHADA – Os pés dos meninos de 11 e 15 anos, que precisam percorrer seis quilômetros diariamente, dividem o mesmo calçado

FORÇA COMPARTILHADA – Os pés dos meninos de 11 e 15 anos, que precisam percorrer seis quilômetros diariamente, dividem o mesmo calçado

Compartilhando as dificuldades e o tênis
Criado apenas pela mãe, C. H. F tem mais dois irmãos: Á. L., de 11 anos, e Eduardo Ferreira, de 7. As dificuldades para conseguir estudar são muitas, o que torna a falta do transporte escolar ainda mais pesado.

O vínculo emocional entre os irmãos é forte e, desde cedo, eles aprenderam a compartilhar, além de emoções, os objetos de uso pessoal. O calçado usado por C. H. F e Á. L. para irem à escola é um só, apesar da diferença de tamanho.

C. H. F tem que andar seis quilômetros para ir e voltar da escola e faz o percurso com muito cuidado para não estragar o calçado de uso comum. E não pode ter distrações no caminho: ele precisa retornar o mais rápido para casa e passar o calçado ao irmão Á. L., para que este possa ir à escola.

“Tem muito buraco, poeira e quando chove fica ainda mais difícil por causa da lama. Eu já presenciei um acidente com a minha colega. Ela tentava atravessar a avenida e foi atropelada por uma moto. Se a gente tivesse transporte essas coisas não aconteceriam e o calçado duraria mais. Eu gostaria que os ônibus voltassem. Mas não vejo problema em ajudar meus irmãos. É gratificante fazer alguma coisa por eles”, afirmou o jovem.

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