Esportistas, atletas e treinadores de Montes Claros se intitulam órfãos de apoio do município nos últimos quatro anos. Segundo eles, a falta de incentivo financeiro e de estrutura para treinamentos deixou fortes candidatos ao pódio fora de competições nacionais e internacionais. 

Para conseguir disputar títulos, muitos tiveram que se esforçar não só nos treinamentos, mas na busca por recursos. Alguns tiveram que apelar até para vaquinhas para conseguir o mínimo necessário para viagens, hospedagem e alimentação.

A falta de investimentos no setor prejudica não só os profissionais, mas também a população, que não possui espaços para práticas esportivas, atividade considerada de extrema importância, por exemplo, para resgatar jovens da criminalidade e o do uso de drogas.

“Nunca tive nenhum apoio do município. Nada. Tenho apenas dois patrocinadores na região que acreditam no meu trabalho. As despesas são muitas e incluem gastos com viagens, hospedagem, alimentação e inscrições. Acabo fazendo outros trabalhos para ajudar no orçamento. Eu luto na maior franquia de MMA do mundo, o UFC”, afirma o atleta de jiu-jítsu e MMA André Muniz, conhecido como Sergipano. Mesmo levando o nome de Montes Claros para Las Vegas, onde se consagrou campeão, as dificuldades são enormes, segundo o lutador.

Em 2018, o atleta e professor de karatê Antônio Marcos Batista, o Marquinhos Karatê, teve que ficar de fora do Mundial por falta de apoio. “Nos dois últimos anos, não tivemos nenhuma ajuda para as despesas com a federação. Participamos do Campeonato Mineiro e Brasileiro de Karatê e fomos campeões em ambos. Infelizmente, ficamos de fora do maior campeonato que poderíamos disputar, que é o Mundial no Rio de Janeiro, exatamente por falta de apoio”, lembra Marquinhos.
 
FUTSAL
E não é apenas nas artes marciais que a ausência de investimento acontece. A atleta e treinadora de futsal feminino Daiany Spinola, coordenadora e técnica do Projeto Carlão, espera por apoio há alguns anos. 

“A nossa maior dificuldade é a falta de eventos da modalidade no município e também a falta de material esportivo. Nosso único apoio vem da Escola Estadual Carlos Albuquerque”, cita Daiany. Apesar de tantas dificuldades, a treinadora ressalta que a equipe foi campeã municipal, micro, regional e estadual nos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG – sub-15 e sub-17) e ficou com a 3ª colocação em Minas Gerais nos anos de 2018 a 2019. “Espero o que todo ano venho almejando: mais incentivo, mais respeito e mais competições”, ressalta Daiany.
 

Por um olhar mais amplo no setor
A falta de investimentos em esportes pela Prefeitura de Montes Claros foi tema de vários debates na tribuna da Câmara de Vereadores. Parlamentares argumentavam que a área nunca foi valorizada pelo município, apesar da importância que ela tem, principalmente em comunidades mais carentes.

O jornalista esportivo Nairlan Clayton, um defensor da prática esportiva na cidade, destaca que, quando se ventila alguma possibilidade de investimento no setor, o foco acaba sendo no futebol, tanto o profissional quanto o amador. “As demais modalidades esportivas ficam relegadas a segundo plano”, lamenta.

Segundo ele, a cidade não tem estrutura esportiva de Vila Olímpica, por exemplo, para a prática de atletismo ou de esportes de olimpíada. “Não temos uma pista de corrida e o atletismo é sempre improvisado. As quadras precisam ser reestruturadas ou não oferecem condições para as práticas de basquete ou vôlei”, exemplifica.

Nairlan fala ainda sobre as obras que foram iniciadas e não finalizadas, caso do ginásio do bairro Maracanã II e de quadras poliesportivas em estado deplorável nos bairros Coronel Joaquim Costa, Vila Áurea e bairro JK – sendo esta última uma das quadras mais antigas da cidade.

No último dia 31 de outubro, O NORTE mostrou a situação do campo Nílson Espoletão, no bairro João Botelho. A obra foi inaugurada pela prefeitura em agosto, dois dias antes do prazo limite imposto pela Justiça Eleitoral, mas com vários problemas e está fechada até hoje.

“É preciso maior atenção para que não só o futebol seja contemplado com os recursos públicos destinados ao esporte no município, mas, sobretudo, que todas as práticas e modalidades possam ser observadas com ações reais e exatas para a gestão do esporte como um todo na cidade”, avalia Nairlan.

A Secretaria Municipal de Esportes foi procurada pela reportagem, mas não respondeu à demanda.

O campeão de jiu-jítsu Lucas Brito, de 23 anos, afirma que nunca contou com nenhuma estrutura do município para chegar ao pódio. “Minha maior dificuldade sempre foi a falta de reconhecimento, a falta de incentivo financeiro das empresas e do município. É treinar com pouca estrutura, não ter alimentação adequada, não ter condições financeiras para competir e mostrar ainda mais o meu trabalho”, desabafa.

“Espero que 2021 seja um ano iluminado para todos, que melhore em todas as áreas, de trabalho e estudos. Que seja um ano que os patrocínios apareçam, que o município reconheça o trabalho dos atletas da nossa cidade, que tenha um investimento melhor na área do esporte e da educação, que a Secretaria de Esportes realmente ajude nossos atletas. O esporte é a porta de um cidadão bem sucedido e de bem”, define Lucas.