Os apanhadores de sempre-vivas da Serra do Espinhaço conquistaram um feito inédito no país: o sistema de coleta das flores que eles realizam, uma tradição na região, entrou para o seleto grupo de patrimônio agrícola mundial. É o primeiro reconhecimento desse tipo no Brasil e o quarto na América Latina.

O título foi concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), dentro do grupo dos Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (Sipam).

A entrega da certificação aconteceu na última quarta-feira, em Brasília, com a presença de representantes dos apanhadores de flores e autoridades. O objetivo da FAO, com o selo, é valorizar populações que preservam métodos seculares de manejo da terra e mantêm, dentro de seu habitat, relações sustentáveis com o meio ambiente.

O Parque Nacional das Sempre-Vivas, localizado em Buenópolis, também integrou o (Sipam). O parque possui um manto de proteção para mais de 70% das sempre-vivas do planeta na Reserva da Biosfera do Espinhaço. 

O reconhecimento da FAO não é só pela tradição das comunidades de coletar flores. Mas por todo o modo de vida, que abrange aspectos históricos, sociais e de relação com o meio ambiente.

No caso dos agricultores da porção meridional da Serra do Espinhaço, eles também se dedicam a outras atividades para o sustento familiar, como as pequenas criações de animais, a coleta agroextrativista de frutos, além da roça de toco, onde fazem plantio de hortaliças, milho, frutas, mandioca e feijão, além de plantas medicinais.

É dessas roças que sai grande parte da alimentação dos moradores das comunidades, que também comercializam parte da produção. “Nós não mexemos apenas com a sempre-viva. Criamos animais e temos também a roça de toco. Mas a gente precisa da sempre-viva para ajudar no sustento”, diz a dona Jovita Maria Correa, enquanto prepara os arranjos das flores que colhe.
 
RECONHECIMENTO 
A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, enaltece o trabalho dos mineiros e o ressalta a natureza da região. “Nosso país está sendo reconhecido pela primeira vez com um patrimônio da agricultura mundial. Esse patrimônio foi construído nas montanhas de Minas. São práticas e conhecimentos únicos. Vocês são os guardiões da biodiversidade”, destacou a ministra durante o pronunciamento de entrega do selo.

DIVERSIDADE
As flores sempre-vivas são endêmicas e ganharam este nome porque, mesmo depois de colhidas e secas, conservam sua forma e coloração. Até o momento, já foram identificadas 240 espécies nativas manejadas, das quais 90 são as chamadas flores e botões.

“As comunidades rurais reconhecidas pela FAO recebem assistência técnica da Emater-MG em suas atividades produtivas e também na organização para acesso ao mercado. Além disso, trabalhamos em parceria com diversas instituições para elaboração do Plano de Ação para Conservação Dinâmica do Sistema Agrícola Tradicional da Serra do Espinhaço Meridional”, explica Márcia Campanharo, coordenadora técnica estadual da Emater.

*Com Manoel Freitas e Agência Minas