Com a imunização contra a Covid-19 ainda em ritmo lento no Brasil, muita gente tem buscado alternativas para garantir proteção contra a doença, que já matou mais de 40 mil pessoas em Minas. Uma delas é o chamado “turismo da vacina”. Só em maio, o fenômeno cresceu 50% no Estado em relação ao mês anterior. 

Os pacotes incluem a quarentena obrigatória em outro país (geralmente no litoral mexicano) e a hospedagem nos Estados Unidos, e custam, em média, R$ 20 mil por pessoa.

Para garantir a tão sonhada imunidade, a rota é longa. Primeiro, é necessário ficar recluso por duas semanas – Caribe também é opção –, para depois, com um teste negativo para o coronavírus em mãos, seguir para solo estadunidense.

Os principais destinos dos brasileiros são Cancún e Cidade do México, além de Panamá, República Dominicana e Costa Rica, de onde viajam para Miami, Orlando ou Nova Iorque. Há também destinos mais distantes, porém menos comuns, como Dubai, nos Emirados Árabes. 

Segundo Alexandre Brandão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens de Minas Gerais (Abav-MG), a procura causou aumento de 20% no valor das passagens para a América Central no último mês. Por isso, a Copa Airlines, companhia aérea panamenha, vai aumentar de dois para três os voos semanais partindo de Confins. 

Para permanecer menos tempo fora, a pessoa precisa contar com a sorte de receber o imunizante do laboratório Janssen, aplicado em apenas uma dose. Caso contrário, terá de prolongar a hospedagem na terra do Tio Sam em duas semanas para tomar o reforço necessário de outros fabricantes, como Pfizer e Moderna.

Não é para qualquer bolso. De forma geral, se deslocam para o outro extremo do continente para receber a blindagem contra a Covid casais na faixa de 30 a 50 anos, com poder aquisitivo alto e que podem ficar 20 dias fora de casa gastando pelo menos R$ 40 mil.

Conforme o presidente da Abav, parte deles prefere embarcar rumo ao exterior em outras capitais brasileiras. “Às vezes pelo voo de Brasília ou Porto Alegre, porque São Paulo e Rio estão lotados”, explica.

Um mineiro de 29 anos, que mora em Brasília e pediu para não ser identificado, está há nove dias em um apartamento alugado em Cancún, no México. Após a reclusão de 14 dias vai para Miami, nos EUA, onde pretende receber as duas doses da vacina da Pfizer antes de retornar ao Brasil, no fim de junho. “Por questão de preço, estou longe da região hoteleira e trabalho em home office daqui”, conta. 

Para o infectologista Unaí Tupinambás, membro do Comitê de Enfrentamento à Pandemia de Belo Horizonte, aqueles que recorrem a esses meios estão furando a fila e apresentam uma postura antiética e egoísta, pois é necessário proteger primeiro quem tem mais riscos de se infectar. 

“Se essas vacinas estão sobrando, que (os países) doem para o Covax, entidade sem fins lucrativos que está tentando ampliar a vacinação para as nações que mais precisam”, avalia o médico.