O ator e diretor norte-mineiro Milton Chaves, de 39 anos, tem pulso firme e mente inquieta. É ele quem rege o grupo Cicatrizes, formado por atores e músicos voluntários, que se desdobram para fazer o bem. 

Graduado em Educação Física e mestre em Educação, Milton é filho da diretora aposentada Etelvina e do senhor Milton. 

Um de seus trabalhos, o espetáculo “Você é especial”, inspirado no livro do escritor americano Max Lucado, resultado de sua direção incansável e criativa, reuniu grande público em Montes Claros e região. Tudo isso em favor do próximo.

Atualmente, o artista vive em Candiba (BA), uma pequena cidade, cheia de hospitalidade, segundo conta. De volta a Montes Claros, de férias, ele aproveita para reunir o grupo e pensar na próxima montagem. 

Ao todo, foram cinco espetáculos: “Preto de neve e os 7 anões” (traz uma reflexão sobre o resgate da identidade negra do brasileiro), “A missionária chapeuzinho vermelho” (com ênfase na importância de levar os “doces”, ou seja, as coisa boas da vida para as pessoas); “Você é Especial” (voltado para a valorização do ser humano); “Eu escolhi viver” (em apoio ao Setembro Amarelo e ao combate ao suicídio), “Natal? Que bagunça é essa” (resgatando o verdadeiro sentido no Natal e trazendo reflexão crítica sobre o ativismo).
 
Quando e como surgiu a ideia de criar o grupo Cicatrizes? 
A partir das histórias vividas, de dores, marcas que vêm se tornando cicatrizes (minhas e de amigos). O projeto é decorrente da amizade de pessoas com um desejo de compartilhar o amor. Busca mostrar como podemos extrair alegria e esperança dos vários tipos de ferida que a vida traz.
 
O musical “Você é especial”, inspirado no livro de Max Lucado, foi muito bem recebido pelo público. 
Max Lucado é um escritor incrível. A sensibilidade dele, juntamente com a criatividade e a linguagem fácil, gera empatia no público. A história já é muito forte, no sentido de lidar com questões profundas do ser humano, como a aceitação de quem você é. No musical, juntamos a força da história com música, cores, dança e muita sensibilidade. Força e sensibilidade. Mistura explosiva. Penso que o público é atraído pela combinação disso tudo.
 
Na plateia, crianças, jovens e adultos se emocionavam facilmente, não é?
Além da linguagem simples que esse musical traz, a história de vida da personagem “Marcinelo” gera muita identificação. Todos passamos por momentos de sofrimento, desânimo, vontade de desistir, de morrer. A verdade é que a vida é uma construção de risos e lágrimas e não estamos acostumados a lidar com as lágrimas. Esse musical é sobre viver. Coisas difíceis, ruins, acontecem o tempo todo, com todas as pessoas. A diferença é o que podemos fazer com essas dores. Nós resolvemos transformar em música, ou melhor, histórias contadas e cantadas, que podem ajudar seres humanos a viver melhor.
 
Tem alguma história marcante em algumas dessas apresentações?
Temos várias. Em algumas escolas, as professoras e diretores nos diziam que o alunos que mais choravam durante a apresentação eram os que mais praticavam bullying com os coleguinhas. Enquanto a gente estava tentando “alcançar’’ o coração de alguém que sofria o bullying, a força da história estava indo muito além. Trabalhando no íntimo de corações feridos que passam a ferir, a reproduzir o que viviam. Isso foi maravilhoso. Em uma das apresentações, eu não estava emocionalmente bem, mas fui apresentar. Ao final da peça, uma das crianças me viu e gritou o nome do personagem e veio me dar um super abraço. Era tanta gratidão, amor, identificação e cuidado que o sorriso dela, a força do afeto demonstrada no abraço, transcendeu o momento e acalmou minha alma triste naquele dia. E como lidamos com questões que envolvem cor da pele, habilidades, textura do cabelo, aceitação de quem você é, no momento da apresentação, percebemos no olhar e nas expressões uma identificação muito forte. É como se dissessem: Essa é minha história e hoje eu estou recebendo uma porção de esperança para seguir em frente com a vida. A gente chora, se emociona entra no clima. 

Em algumas escolas, as professoras e diretores nos diziam que os alunos que mais choravam durante a apresentação eram os que mais praticavam bullying com os coleguinhas