Quando criança, Luana Zelita Costa morria de vergonha do sobrenome Zelita. Todos na escola a caçoavam por causa dele. Então, teve uma ideia: abreviar. Ficou então, Luana Z. Costa. Letra que ganhou ainda mais força e significado com a abertura do “Atelizê”, espaço de produção da artista localizado no bairro de Lourdes.

Mas é no Montes Claros Shopping que o público pode conferir a primeira exposição de Luana. “Foi tudo muito de última hora. Para falar a verdade, não tinha nada planejado. Entrei em contato com eles para resolver a questão de uma cliente. Aproveitei a oportunidade e perguntei se tinham algo planejado para o mês da Consciência Negra. Eles me perguntaram se eu tinha alguma sugestão. Mandei um projeto bem básico, com algumas peças, eles gostaram e aqui estamos”, conta a artista.

A exposição pode ser vista até 9 de dezembro. A artista utiliza várias técnicas para produzir as peças, que começam a ser criadas pelos esboços, rabiscos e desenhos manuais. A partir disso, faz a pintura com tinta acrílica.

“Desenhos e pinturas prontas, passo o projeto para o digital e trabalho nele para me possibilitar a reprodução das imagens. Consigo aplicá-las em tecidos, porcelanas, utensílios do dia a dia, decoração, enfim, são infinitas as possibilidades. Assim, consigo valores mais acessíveis, afinal, arte é para todos, sem distinção de classe social”, defende Luana.

A artista também faz pinturas exclusivas, sob encomenda. “Estas não vão para a loja virtual”, diz a salinense de 34 anos que mora em Montes Claros desde 2006.

“Desde que me lembro eu desenho. Não me imagino trabalhando com outra coisa”, afirma Luana, que cursou Artes Visuais pela Unimontes, turma de 2009, e concluiu o curso já trabalhando como designer gráfica.
 
PRÓPRIO NEGÓCIO
Ela conta que atuou neste setor por 11 anos e aprendeu muito sobre o mercado de arte digital e técnicas no dia a dia. Em 2014, abriu a empresa física, a Atelizê Artes Gráficas.

“Dava preferência para trabalhar com mulheres, por ter um olhar mais delicado e crítico, assim conseguiam me acompanhar. Em 2017, quando meu caçula nasceu, passei a Atelizê para o digital, e consegui conciliar os filhos com o trabalho”, diz.

No início da pandemia, a artista, mais estabilizada no setor, resolveu voltar a desenhar, criar um estilo próprio, só para passar o tempo mesmo. “Foi quando um amigo muito querido viu meus desenhos e começou a acreditar mais em mim do que eu mesma, e o resultado está na minha primeira exposição”, festeja.
 
MEMÓRIAS
O trabalho de Luana tem muitas memórias da infância, adolescência e de cidade do interior. “É sobre muita coisa que vivi e presenciei, infelizmente, o preconceito ao feminino, à cor da pele, às suas formas, até ao próprio nome, eram muito fortes. Éramos julgadas em tudo e por todos, inclusive pelos professores, pela família, mesmo sendo apenas crianças”, conta.

Em sua arte, Luana aborda o feminino, suas formas, a aceitação. Desconstruções de padrões enraizados na sociedade, do ser humano, de formas, de fé. “É um trabalho monocromático onde o preto e traços mais retos e pontiagudos representam mais essa agressividade, esse sofrimento vivido, mas com uma certa leveza no branco e nos pontos arredondados de muita coisa boa, felicidades, conquistas, paz de quem conseguiu driblar certas dificuldades”, diz.

Há também muitos detalhes do sertão, da seca, do que ela viveu e ouviu, do dia a dia, da fé que cresceu vivenciando. “É sobre a fé que construí em mim. Vivências que se tornaram inspirações. Sempre com um tom de movimento, de quem não para, de quem está sempre seguindo em frente”, conta.

Parte das vendas da exposição será destinada ao projeto Roda Montesclariô de Capoeira – Projeto Meninos de Pés no Chão /Cristo Rei, coordenado pelo mestre Wagner Ruas, que acolhe crianças e adolescentes para o esporte, arte e cultura afrobrasileiras por meio das aulas de capoeira.

Para seguir a artista: 

@atelizze

www.atelize.com