
Nos anos 80, o carioca Thomas Roth, cantor, compositor, produtor, publicitário e ator, já estava adaptado à cena paulistana, quando conheceu o montes-clarense Luiz Guedes, o Lulu, que havia se mudado para SP e trabalhava em uma loja de discos. Do encontro casual nasceu a dupla que marcaria o cenário musical brasileiro, cantando e compondo para outros artistas. A dupla se desfez na década seguinte, mas a amizade permaneceu até a morte de Lulu, que havia retornado a Montes Claros com a esposa Lenita e as filhas Débora e Bárbara. Em 2026, Thomas aterrissou na cidade para participar de um show em homenagem a Lulu, idealizado pela filha Débora. Atualmente é contratado do SBT e jurado do Programa do Ratinho. Nessa entrevista, ele relembra a parceria e fala dos desafios do mercado fonográfico.
A dupla emergiu num período de muitas formações semelhantes. Era essa a proposta?
Inicialmente, pensamos em um quarteto inspirado em grupos vocais da época, mas o projeto não avançou. Eu e Luiz seguimos juntos porque existia uma forte afinidade musical, uma identificação imediata. Eu gostava de música folk e rural, enquanto Luiz trazia influências de quem saiu do interior para a cidade grande. Essas diferenças se complementaram e a parceria nasceu naturalmente. Tivemos a felicidade de ver nossas músicas gravadas rapidamente por grandes artistas, o que ajudou a consolidar nossa carreira.
Elis Regina foi uma dessas artistas. Ela tinha opiniões bem definidas. Havia um elemento político nessas canções?
A juventude queria tudo que se distanciasse de beligerância e animosidade. A música “Quero” pregava um mundo fraterno. Tinha muito a ver com o que Lulu pensava também e aí, quando fizemos “Nova Estação”, obviamente éramos contra a ditadura, governo autoritário, de censura e opressão. Eram anos complicados. Começamos a trabalhar mais fortemente no final dos anos 70, começo dos 80, e havia ali os primeiros sinais de abertura política no Brasil. A gente queria celebrar o sonho, o amor, a liberdade. Nova Estação vinha anunciando esses sinais que se desenhavam no horizonte. Gravamos duas vezes, em compacto e em um álbum, com arranjos diferentes. A Elis conheceu a música e acabou nos brindando com uma linda gravação em seu último álbum, Elis.
“Canção de verão” explodiu, veio também “Cachoeira”…
Canção de verão enfatizava a liberdade de sonhar. As pessoas que falam que não têm liberdade hoje, não têm ideia do que foi aquele período. Era um dos nossos carros-chefes, mas o Mariozinho Rocha, que produzia o Roupa Nova, ouviu a gente tocando no estúdio da Emi (gravadora) e disse que queria a música. Há 46 anos essa música toca e toca de novo. Marcou muito e abriu portas. ‘Cachoeira’ foi gravada primeiro por Rosana, mas o Lincoln Olivetti, que fazia os arranjos, acabou lançando outra música e ela ficou ‘escondida’. O Ronnie (Von) havia pedido uma música, a gente mostrou essa, ele adorou, gravou e durante muitos anos falava que essa música o trouxe de volta. Veio o Peninha e gravou “Amo Você”. Tivemos uma sequência de sucessos: Ela Sabe Demais, Milagre do Amor, Estradas, Chuva de Vento.
E mesmo assim, a dupla se desfez…
Estava ficando difícil sob todos os aspectos. Éramos um dos quatro lançamentos da EMI. Dalton, com Muito Estranho, Blitz, com Você Não Soube Me Amar, Luiz Guedes e Thomas Roth, e Paralamas do Sucesso com Vital e Sua Moto. Vendemos mais que Paralamas, mas no álbum seguinte, quem estava produzindo Paralamas era o Liminha, um dos papas da indústria da música, e nós sentimos que os outros estavam fazendo um super trabalho e a gente estava meio no canto. Terminamos o segundo álbum na sala de mixagem, não foi nem na sala de som. Aquilo nos deixou chateados. Nas vidas pessoais, vivíamos momentos complicados, ambos com filhos pequenos, e o empresário ficava com a maior parte. Estávamos nas notícias, na TV, fazíamos todos os programas, Chacrinha, Hebe, Silvio Santos, Bolinha, Globo de Ouro, mas em casa não tínhamos o que comer. Um dia, a minha mulher falou: ‘Cara, como é que faz?’. Aquilo foi a gota d’água. E pro Lulu também. No fim, a gente estava sem grana, as pessoas achavam que estávamos ricos e não estávamos. Uma somatória de coisas e resolvemos dar um tempo. Tivemos uma discussão chata com uma pessoa da gravadora. Várias pessoas nos queriam, mas quando rompemos com a gravadora, as outras que nos queriam, sumiram. A vida foi mudando, o Lulu ficou doente e acabamos não juntando os trapinhos de novo. Mas ficaram as obras. E tem coisas dele lindas e inéditas.
Como você vê a indústria atual?
Hoje é mais fácil produzir e divulgar por conta própria, graças à tecnologia e à internet. Mas a concorrência é maior. Uso a imagem de um iceberg. Debaixo da água tem muito mais gelo do que está aparecendo fora. As pessoas avaliam por aquilo que elas assistem na TV, só que é impressionante a diversidade da produção atual. Trabalhos incríveis, de todos os estilos. Mas é o seguinte, tire a bunda da cadeira e vá atrás. Para aparecer no meio da multidão, está difícil.
O que você diria para quem está entrando no mercado?
Seja criativo e autêntico. Não tente repetir fórmulas. Conte sua própria história, porque é nela que as pessoas podem se identificar. Verdade e originalidade continuam sendo diferenciais.
Como você se define artisticamente?
Produtor, compositor e ‘cantautor’, um autor que canta suas músicas. Não me sinto obrigado, não sou um superintérprete, cantor ou instrumentista. Toco numa afinação minha e acaba dando um resultado de melodias diferentes. É o meu caminho desde sempre. Canto para as pessoas que gostam das minhas músicas e mensagens. Fiz música contra o etarismo, que é um problema muito sério e eu vivo na pele. Já fiz música contra o preconceito, racismo. O papel do compositor é ser um repórter do seu tempo. Questionar, botar o dedo na ferida, acender a consciência, fazer as pessoas pensarem.
