
Dividido em capítulos e narrado pela própria diretora, “Apocalipse nos Trópicos” (2025), dirigido pela mineira Petra Costa, começa com imagens da construção de Brasília-DF e termina com cenas que mostram a destruição do Congresso Nacional e Palácio do Planalto, na manifestação do dia oito de janeiro de 2023. Costa cobre um período que vai de 2016 a 2023, e percorre vários Estados. Estão lá as campanhas à presidência da República de 2018, a prisão do então candidato Lula da Silva, para tirá-lo da disputa, e a projeção de Jair Bolsonaro, impulsionado pelos setores evangélicos.
A diretora entrevista uma das figuras centrais na caminhada evangélica, o pastor Silas Malafaia, em diversos momentos. E cita o Dominionismo, que começa nos EUA e avança por toda América Latina, demolindo a ideia de Estado laico ao pregar o domínio, pelos cristãos, de todos os aspectos da sociedade. E a transformação das lutas sociais e políticas em embates entre o bem e o mal.
Ela ainda documenta a posse de Jair Bolsonaro, em 2019, e a indicação, uma promessa de campanha, de um evangélico para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente confirma que para o indicado ao cargo, André Mendonça, o primeiro requisito é que ele fosse evangélico; em segundo lugar, estaria o conhecimento jurídico. Nos últimos capítulos, aparecem a derrota de Bolsonaro para Lula, em 2022, as movimentações antidemocráticas, e os acampamentos em frente aos quartéis, que terminariam com as manifestações do dia oito de janeiro de 2023.
O documentário testemunha um momento importante da história recente do país. Em entrevistas, Petra Costa explicou que não pretendeu fazer uma etnografia dos fiéis evangélicos, mas buscou retratar suas lideranças, como uma espécie de metonímia, ou seja, usar algo para se referir a outro. No caso, pastores e seus rebanhos.
Misturando ação, comédia e espionagem, “C.I.C. – Central de Inteligência Cearense” (2025) transforma referências clássicas dos filmes de agentes secretos em uma divertida paródia marcada pelo humor regional. Ambientada em Fortaleza, a narrativa acompanha um grupo improvável de investigadores que precisa impedir uma organização criminosa de colocar em prática um plano capaz de comprometer a segurança do país. Ao combinar perseguições, disfarces e situações absurdas, o filme utiliza a linguagem do cinema de gênero para valorizar a cultura nordestina.
O humor surge dos diálogos e da inversão de expectativas aproximando o público de figuras características que resolvem os conflitos mais pela criatividade e improvisação do que pelo aparato tecnológico característico dos espiões do cinema internacional. Depois de consolidar uma filmografia voltada para a valorização do Nordeste em obras, como “Cine Holliúdy” (2013), “O Shaolin do Sertão” (2016) e “Bem-vinda a Quixeramobim” (2022), Halder Gomes reafirma a proposta de construir um cinema acessível e profundamente ligado às manifestações culturais cearenses.
Na direção, o cineasta mantém o ritmo ágil equilibrando cenas de ação, humor físico e referências à cultura popular nordestina consolidando a bem-sucedida parceria com o carismático Edmilson Filho como o protagonista Agente KarKará. Sem abrir mão do entretenimento, “C.I.C. – Central de Inteligência Cearense” demonstra que a comédia funciona como instrumento de valorização cultural, que conquista o público e reafirma o potencial criativo do cinema produzido fora do eixo tradicional da indústria audiovisual brasileira.
