Diplomacia

Novo edital do Itamaraty amplia acesso de indígenas e quilombolas

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 30/01/2026 às 19:00.
Sandra XaKriabá, formada em direito pela Funorte no final de 2025, destaca a importância das cotas em concursos públicos: “uma das nossas lutas é a caneta!” (Arquivo Pessoal)
Sandra XaKriabá, formada em direito pela Funorte no final de 2025, destaca a importância das cotas em concursos públicos: “uma das nossas lutas é a caneta!” (Arquivo Pessoal)

Indígenas e quilombolas interessados na carreira diplomática passam a ter, a partir do primeiro edital sob a nova lei de cotas, sancionada em 2025, uma oportunidade concreta de ingresso no Itamaraty. O Instituto Rio Branco, academia de formação diplomática do Ministério das Relações Exteriores e única porta de entrada para a carreira, divulgou nesta quinta-feira (29) o edital do concurso, com inscrições abertas de 4 a 25 de fevereiro. Ao todo, são ofertadas 60 vagas, sendo 35% reservadas para cotas raciais e para pessoas com deficiência (PCDs). Do total, 39 vagas são destinadas à ampla concorrência, três a PCDs, 15 a pessoas negras (pretas e pardas), duas a pessoas indígenas e uma a pessoas quilombolas.

O requisito para o candidato a diplomata é a formação superior em qualquer área, humanas, exatas ou biológicas, entretanto, pela afinidade com os temas do concurso, muitos vêm das áreas de direito, economia, ciência política ou história. A formação acadêmica serve como base e facilita a aprovação, já que o concurso exige amplo conhecimento e preparação.

Para a indígena Sandra Nunes, a Sandra XaKriabá, a abertura de cotas para a carreira diplomática e demais concursos públicos é um avanço. “Acho importante, porque mesmo que a gente esteja com pessoas de várias interfaces, a gente sabe que essas oportunidades demoram mais a chegar até nós, pela distância, acessos e outros fatores. Acredito que foi dado um passo muito importante nesse sentido”, opina.

Sandra pertence à aldeia de Barreiro Alto, em São João das Missões. Há 16 anos, ela se formou em pedagogia pelo Centro Universitário Funorte de Januária. Trabalhando na área de educação em seu território, ela se colocou novamente na estrada, refazendo diariamente o trajeto de mais de 100 km para chegar a Januária, desta vez, para cursar direito. No final de 2025, concluiu a segunda graduação. A escolha pelo curso não é à toa. “Uma das principais heranças do povo indígena é a luta. Tudo que a gente faz no dia-a-dia está relacionado a direitos e deveres. E o que me impulsionou foi justamente saber que uma das armas de luta é a caneta. O tempo todo estamos lidando com retrocessos, com as questões da legislação e seus parâmetros mutáveis”, disse. Para a indígena, fazer direito agrega em todos os aspectos, especialmente quando se trata de efetivar as ações propostas para os povos originários. De uma família de quatro irmãos (uma delas a deputada federal Célia XaKriabá), todos caminhando ou já encaminhados na educa
ção superior, o seu ingresso na faculdade inspirou outros indígenas e esse é para Sandra um dos motivos de satisfação.

A pedagoga Denise Franco Abreu, diretora da unidade de Januária, conta que a unidade conta com vários alunos indígenas e, a partir da primeira formação, Sandra se tornou profissional da educação no território XaKriabá, desenvolvendo um trabalho extremamente importante, multiplicando conhecimento e superando inúmeros desafios. “O território é longe e a dedicação dela e de outros indígenas da nossa instituição é impressionante”, diz. 

Conforme a diretora, foi a presença indígena que deu ensejo à criação de um evento anual na Funorte. “Eles nos trouxeram uma riqueza muito importante e a Sandra colaborou de maneira fundamental na criação da Mostra Cultural que acontece todo ano, com foco na população indígena, quilombola e ribeirinha. Discutimos artesanato, costumes, religião e, para 2026, nosso tema é a gastronomia”, declara. Denise diz ainda que ter pessoas com costumes e características próprias em áreas políticas, cidadãs e sociais em geral, enriquece as práticas. “Na formatura, inclusive, preservamos o espaço dela e da comunidade indígena de fazer os festejos e manifestações de acordo com seus costumes”. A diretora conclui destacando que os projetos de valorização dos povos da região são validados pela reitoria e mantenedora da Funorte, que apoia integralmente as ações no sentido de fortalecê-las.

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