Alerta climático

Norte de Minas pode registrar fenômenos extremos? Meteorologista explica

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 30/07/2026 às 19:00.
O Norte de Minas permanece sob influência do tempo seco, mas a previsão indica mudanças no regime de chuvas nos próximos meses devido ao El Niño (Vanessa Araújo)
O Norte de Minas permanece sob influência do tempo seco, mas a previsão indica mudanças no regime de chuvas nos próximos meses devido ao El Niño (Vanessa Araújo)

Nos últimos dias, o noticiário e as redes sociais foram inundados por imagens de ventanias que devastaram cidades e deixaram mortos e feridos em diferentes regiões do Brasil. Em 24 de julho, a passagem de uma frente fria pelo litoral de São Paulo provocou instabilidades significativas. O contraste entre a massa de ar frio e a massa de ar quente, que mantinha as temperaturas em Minas Gerais acima da média para o período, favoreceu a formação de fortes tempestades. O fenômeno atingiu o interior paulista e, em Minas Gerais, alcançou as regiões do Triângulo, Oeste, Sul, Zona da Mata e Leste do estado. O cenário despertou o interesse da população. Na Netflix, o filme “Take Shelter” ficou entre os dez títulos mais assistidos. Na trama, um homem é atormentado por visões da chegada de uma grande tempestade.

Mas um fenômeno semelhante poderia atingir o Norte de Minas? Segundo o meteorologista Ruibran Reis, as características climáticas da região tornam essa possibilidade remota. “Nesta época do ano, as regiões norte, noroeste e leste de Minas Gerais permanecem sob o predomínio de uma massa de ar seco. É recorrente observarmos períodos de cinco a seis meses sem precipitações. As frentes frias concentram-se no Sul do país e, ao atingirem o Sudeste, deslocam-se predominantemente pelo litoral, exercendo pouca influência sobre o norte, noroeste e parte da região central mineira. Portanto, a ausência de chuvas é uma característica habitual deste período”, explica.

Ruibran destaca que os episódios registrados recentemente no Sul do Brasil têm outra dinâmica atmosférica. “Uma frente fria de forte intensidade atuou na região Sul, provocando condições meteorológicas severas, inclusive a formação de tornados”, afirma. De acordo com o meteorologista, esses fenômenos se originam em nuvens do tipo cumulonimbus (uma nuvem de grande desenvolvimento vertical associada a temporais, raios e ventos fortes), cuja base fica próxima de mil metros de altitude e o topo pode alcançar 15 quilômetros.

“O processo ocorre quando massas de ar quente provenientes da Amazônia, a cerca de cinco mil metros de altitude, atravessam o Paraguai em direção ao Rio Grande do Sul e colidem com massas de ar frio vindas da Argentina. Esse choque térmico intensifica as nuvens e favorece a criação de vórtices, que dão origem aos tornados”, explica. Segundo ele, esses eventos têm se tornado mais frequentes nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com registros ocasionais também em São Paulo.

Ainda conforme Ruibran, a frente fria avançou rapidamente em direção ao sudeste, e foi justamente essa velocidade que provocou os ventos intensos registrados no litoral de São Paulo, no Vale do Paraíba e no Rio de Janeiro. “A ventania registrada ontem foi causada pela velocidade do avanço da linha de instabilidade sobre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro”, afirma.

Na retaguarda da frente fria, uma massa de ar frio já se estabelecia sobre o estado de São Paulo e deve alcançar Minas Gerais. “A previsão é de rajadas de vento, especialmente nas regiões do Triângulo Mineiro, Oeste, Sul, Centro, Zona da Mata e Leste. Embora a estimativa seja de ventos entre 20 e 30 km/h ao longo do dia, o fenômeno é decorrente da chegada desse sistema de alta pressão que sucede a frente fria”, explica.

Ruibran também chama a atenção para a influência do El Niño sobre o comportamento do clima neste ano. “Um fator determinante tem influenciado significativamente o regime climático, não apenas no Brasil, mas também em diversas outras nações, onde se observam ondas de calor severas: o fenômeno El Niño”, diz.

Segundo o meteorologista, o fenômeno corresponde ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, na região equatorial próxima às costas do Peru e do Equador, conhecida como “Niño 3.4”. “Atualmente, a temperatura da água nessa área encontra-se 2,2 °C acima da média, configurando o que se classifica como um Super El Niño. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global, provocando chuvas intensas na região Sul do Brasil e períodos de estiagem em Minas Gerais”, afirma.

Para o Norte de Minas, a previsão indica mudanças no comportamento das chuvas. “Há previsão de precipitações na segunda quinzena de agosto e de um período chuvoso ao longo de setembro e outubro. Essas condições são atípicas, visto que o regime de chuvas na região costuma se estabelecer apenas no final de outubro”, explica.

Apesar da antecipação das chuvas, Ruibran alerta que o cenário para os meses seguintes inspira preocupação. “Devido à intensificação do El Niño, cuja temperatura deve ultrapassar 3 °C acima da média a partir de novembro, espera-se um cenário de ondas de calor recorrentes e escassez pluviométrica”.

O meteorologista avalia que o período entre novembro e março do próximo ano tende a ser o mais crítico. “O período chuvoso será irregular, gerando uma falsa expectativa para produtores rurais e pecuaristas, uma vez que as precipitações se restringirão aos meses iniciais, sendo seguidas por um período de seca severa decorrente da atuação prolongada do fenômeno”, conclui.

Compartilhar
Logotipo O NorteLogotipo O Norte
E-MAIL:jornalismo@onorte.net
ENDEREÇO:Rua Justino CâmaraCentro - Montes Claros - MGCEP: 39400-010
O Norte© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por