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Na contramão da tendência mundial, Brasil aumenta consumo de vinhos

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 10/07/2026 às 19:00.
A sommelière Letícia Novato trocou a advocacia pelos vinhos durante a pandemia (Arquivo Pessoal)
A sommelière Letícia Novato trocou a advocacia pelos vinhos durante a pandemia (Arquivo Pessoal)

O vinho conquistou definitivamente espaço na mesa do brasileiro. Em 2025, o país registrou o maior consumo da história da bebida, na contramão da tendência mundial. Dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) mostram que o Brasil consumiu 4,4 milhões de hectolitros de vinho no ano passado, um crescimento de 41,9% em relação a 2024. Enquanto isso, o consumo global recuou 2,7%, refletindo mudanças de comportamento e a desaceleração dos mercados tradicionais.

O avanço do mercado brasileiro é percebido também por quem atua diretamente com o público. A trajetória profissional da sommelière Letícia Novato acompanha esse crescimento do mercado. Apaixonada por vinhos há anos, ela decidiu trocar a advocacia pelos vinhos durante a pandemia. O que começou como um interesse pessoal transformou-se em profissão.

Para Novato, o aumento do interesse pela bebida está ligado a mudanças no estilo de vida e na forma como o consumidor enxerga o vinho. “Muitas pessoas começam a degustar vinhos por entenderem que se trata de uma bebida mais benéfica do que outras opções alcoólicas. Quando adotam hábitos mais saudáveis, acabam escolhendo o vinho nessa transição”, afirma. Ela ressalta, no entanto, que a bebida contém álcool e deve ser consumida com moderação.

Segundo a especialista, o perfil do consumidor também mudou nos últimos anos. A preferência tem migrado para rótulos mais leves e com menor teor alcoólico, tendência que impulsiona o consumo de vinhos brancos, rosés e espumantes. “O consumidor hoje prefere bebidas mais leves e com teor alcoólico baixo. Faz sentido, principalmente em uma região quente como a nossa, onde esses vinhos são mais refrescantes”, explica.

Além da mudança no perfil de consumo, a sommelière observa um consumidor mais curioso e disposto a aprender. Degustações orientadas, minicursos e eventos especializados têm contribuído para ampliar o conhecimento sobre a bebida e reduzir antigos preconceitos. “O consumidor está se educando aos poucos. Hoje ele procura conhecimento antes de comprar e entende que qualidade não está necessariamente ligada ao preço”, analisa Novato.

Essa mudança também influencia a decisão de compra. Embora os rótulos mais acessíveis ainda representem a maior parte das vendas, há espaço para produtos premium e para vinhos brasileiros de maior valor agregado. “O preço continua sendo importante, mas o consumidor já percebe que existem vinhos excelentes por valores acessíveis. Tenho rótulos premiados internacionalmente que custam menos de R$ 30” .

A advogada Karine Neves Dias desenvolveu o interesse por vinhos por influência de um primo enólogo. Nos últimos anos, conta que aumentou o consumo da bebida à medida que passou a participar de cursos e degustações. “O paladar para o vinho precisa ser desenvolvido. É preciso aprender a degustar, e esse processo é muito prazeroso, desde o olfato até a sensação dos taninos que permanecem na boca”, afirma. Karine diz que aprecia o vinho não apenas pelo sabor, mas também pela experiência que a bebida proporciona.

Outro movimento observado por Letícia é a valorização da produção nacional. Segundo ela, o reconhecimento conquistado por vinícolas brasileiras desperta o interesse dos consumidores e fortalece regiões produtoras fora dos polos tradicionais. Ela destaca, inclusive, o Norte de Minas, onde empreendimentos como a Vinicultura Loschi e o Vale do Gongo vêm conquistando espaço com rótulos que expressam as características da região.

Para a Novato, o crescimento do consumo não representa uma moda passageira, mas uma evolução de um mercado que ainda tem espaço para crescer. O desafio, segundo ela, será tornar o universo do vinho cada vez mais acessível, investir em experiências para novos consumidores e adaptar a produção às mudanças climáticas, que já impactam vinhedos em diferentes partes do mundo.

Além do interesse crescente pela bebida, Letícia acredita que o consumidor tem deixado para trás antigos preconceitos que, durante anos, afastaram muitas pessoas do universo do vinho. Para ela, um dos principais desafios da sommellerie é justamente desmistificar conceitos que ainda circulam entre os consumidores. “O maior mito é que vinho doce é vinho ruim. Muita gente gosta de vinhos suaves, mas sente vergonha de admitir por causa desse preconceito. A verdade é que alguns dos vinhos mais raros e valorizados do mundo são doces”, afirma.

A especialista também rebate outras crenças populares, como a ideia de que apenas vinhos caros são de qualidade, de que a bebida deve ser reservada para ocasiões especiais, de que todo vinho antigo é melhor ou de que garrafas com tampa de rosca indicam baixa qualidade. “Qualidade não depende do preço, nem do tipo de fechamento da garrafa. O importante é conhecer, experimentar e descobrir o que agrada ao seu paladar”.

Outro equívoco comum, segundo ela, é acreditar que o vinho deve ser consumido apenas no inverno. “Os vinhos brancos, rosés e espumantes são leves e refrescantes, combinando perfeitamente com o clima quente da nossa região”, esclarece. Para Letícia, quanto mais informação chega ao consumidor, mais democrático se torna o mercado. “O vinho deve ser encarado como uma experiência prazerosa. A ideia é aprender e se divertir, sem medo de errar”, finaliza.

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