entrevista

Medicina da longevidade aposta em prevenção e qualidade de vida

Especialista explica como hábitos saudáveis ajudam a prevenir doenças

Leonardo Queiroz
leonardoqueiroz.onorte@gmail.com
Publicado em 27/05/2026 às 19:00.

A medicina moderna amplia seu foco: além de prolongar a vida, busca garantir envelhecimento saudável, com preservação da saúde física e mental. O NORTE DE MINAS conversou com o médico Matheus D’Angelis, que atua na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Montes Claros e tem especialização em Medicina Esportiva, sobre como a integração entre medicina, ciência e tecnologia orienta estratégias de prevenção do envelhecimento precoce e promoção de qualidade de vida.

 
Atualmente, se fala muito em viver mais. Qual é a diferença entre apenas aumentar a expectativa de vida e alcançar uma longevidade saudável e com qualidade?
O que mais influencia na questão de viver mais e com qualidade é justamente tratar as causas da perda de funcionalidade ao longo do tempo. Isso envolve aumentar a disposição, melhorar o sono e a rotina de atividades físicas, proporcionando um melhor contexto metabólico, muscular, ósseo e também de saúde mental, para que a pessoa mantenha o corpo funcional pelo maior tempo possível. Uma coisa é chegar aos 90 ou 100 anos de forma ativa, com raciocínio preservado, autonomia e independência. Outra é apenas sobreviver até essa idade com baixa capacidade funcional e dependência. A medicina da longevidade busca justamente cuidar da forma como o corpo envelhece e prevenir doenças ao longo desse processo.
 
A medicina moderna tem mostrado uma ligação cada vez maior entre saúde física, saúde mental e metabolismo. Como esses três pilares se conectam e influenciam diretamente o desempenho do corpo ao longo dos anos?
É impossível tratar uma doença de forma isolada, como acontece com a obesidade ou até mesmo com a longevidade. Para que uma pessoa consiga sair de casa, manter uma boa rotina e praticar atividade física, ela precisa ter saúde mental equilibrada. Também é necessário ter um corpo e um metabolismo que permitam executar essas funções corretamente, tanto em relação ao sono quanto à disposição no dia a dia e para a prática de exercícios. Tudo isso faz parte de um ciclo positivo, em que a atividade física melhora o padrão psicológico, psiquiátrico e metabólico. Não há como essas áreas trabalharem separadamente. Os três pilares mais importantes são a saúde física, mental e metabólica, que se complementam o tempo todo.
 
Muitas pessoas só procuram ajuda médica quando a doença aparece. Na sua visão, como a medicina preventiva e a análise de longo prazo podem transformar a qualidade de vida das pessoas antes mesmo dos primeiros sinais de problemas?
É muito mais simples tratar uma pressão alta do que uma insuficiência cardíaca avançada. Também é muito mais fácil tratar um diabetes no início do que lidar com complicações como falência renal ou amputações. Chega um momento em que não é mais possível controlar a doença da melhor forma; o que fazemos é apenas tentar conter os danos. Por isso, precisamos focar na qualidade de vida e na longevidade, agindo antes que os problemas se agravem.

Os primeiros sinais costumam ser justamente os mais ignorados pelas pessoas. É aquele cansaço que não passa e que muitos acham ser apenas falta de vitamina; uma baixa libido incomum; o aumento da frequência urinária; dores de cabeça constantes ou uma dor no joelho que incomoda diariamente. Aos poucos, tudo isso vai sendo deixado de lado até se tornar algo insustentável e insuportável. Quando a doença chega a esse estágio, o tratamento se torna muito mais difícil e, muitas vezes, conseguimos apenas aliviar parcialmente os sintomas. Afinal, é muito mais fácil perder cinco quilos do que cinquenta, não é mesmo?”
 
O estresse, a má alimentação, o sono irregular e o sedentarismo se tornaram comuns na rotina atual. Quais são os maiores impactos desses hábitos no envelhecimento precoce e no funcionamento do organismo?
O sono irregular, principalmente de quem trabalha à noite, já tem comprovação científica de que pode aumentar a fome em até 30%. Se a fome aumenta, automaticamente a pessoa tende a comer mais durante o dia. Além disso, não dormir à noite atrapalha o ciclo circadiano, aumenta o estresse e dificulta o controle emocional. Isso acaba virando uma verdadeira bola de neve: a pessoa não dorme direito, não se alimenta bem, se sente mais estressada e muitas vezes busca recompensas alimentares, o que contribui ainda mais para a má alimentação.

Com o tempo, também falta disposição para praticar atividade física, favorecendo o sedentarismo. Quando essa pessoa percebe, já passou dos 50 anos, muitas vezes convivendo com várias doenças associadas, o que torna o tratamento muito mais difícil. No caso das mulheres, a menopausa interfere bastante nesse processo. Já nos homens, é muito comum o acúmulo de gordura visceral, aquela conhecida ‘barriga de chope’, que é extremamente difícil de tratar e está relacionada a alterações importantes, como síndrome metabólica, diabetes e baixa produção de testosterona, muitas vezes ligada à síndrome de MOSH, entre outros problemas.
O organismo nunca funciona de forma isolada; ele é um conjunto. Se não tratarmos o corpo como um todo, o tratamento provavelmente não será eficaz.

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