Família atípica

Mãe de trigêmeos autistas: ‘transformei dor em força’

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 29/05/2026 às 19:00.
Pessoas autistas sentem, querem carinho e pertencimento — apenas socializam de forma diferente, explica Rawielle (Arquivo Pessoal)
Pessoas autistas sentem, querem carinho e pertencimento — apenas socializam de forma diferente, explica Rawielle (Arquivo Pessoal)

O NORTE encerra o quadro “Maternidade” com o relato de Rawielle Pascoal, mãe atípica de trigêmeos de 14 anos. Em meio a uma rotina intensa, ela compartilha sua jornada de coragem, resiliência e luta por inclusão e qualidade de vida para os filhos.

Rawielle recorda que a gestação foi planejada e que precisou realizar tratamentos para engravidar. O tão sonhado resultado positivo veio após a fertilização in vitro — processo que ela define como “desejado, emocionante e muito intenso”.

“Meus filhos nasceram extremamente prematuros e enfrentaram uma grande luta pela sobrevivência desde os primeiros dias de vida. Percebi que eles eram diferentes ainda muito pequenos, quando ainda eram bebês. Comecei a notar atrasos no neurodesenvolvimento, dificuldades na interação e na fala. Eles apresentavam sinais que já chamavam minha atenção desde muito cedo”, recorda Rawielle.

Segundo ela, a história da família é marcada pela superação desde a decisão de ser mãe. Primeiro vieram os desafios da prematuridade extrema dos trigêmeos; depois, o diagnóstico dos três com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Dois dos meninos, os gêmeos idênticos, possuem diagnóstico de TEA nível 3 de suporte e epilepsia. O terceiro apresenta TEA entre os níveis 1 e 2 de suporte, além de TDAH.

“Eles passaram cerca de três meses hospitalizados, entre UTI neonatal, semi-intensivo e enfermaria, até estarem fortes o suficiente para receber alta. Foram dias de muita fé, medo e luta pela vida. Então, o autismo não foi o único desafio da nossa caminhada. Desde que nasceram, eles já se mostraram verdadeiros vencedores, e seguimos lutando juntos todos os dias. Apesar dos diagnósticos, cada um possui sua individualidade, personalidade e uma forma única de enxergar o mundo”, detalha Rawielle.

Além da jornada de ser mãe, Rawielle ressalta que o maior desafio é a sobrecarga física e emocional. Segundo ela, a maternidade atípica exige diariamente força, paciência e dedicação. Ela relembra que, durante muito tempo, viveu apenas para cuidar dos filhos e acabou deixando de cuidar de si mesma — realidade comum entre muitas mães atípicas.

“Muitas vezes, a mãe acaba esquecendo de si mesma para conseguir cuidar dos filhos. Eu transformei muita dor em amor, força e coragem para continuar. Houve momentos em que pensei que não conseguiria, mas, graças a Deus, fui ressignificando tudo dentro de mim e correndo muito atrás do desenvolvimento deles. Hoje cuido mais da minha saúde emocional e física. Faço terapia, musculação e pilates, porque entendi que, se eu não estiver bem, não consigo cuidar dos meus filhos. Além disso, muitas mães não têm acesso a acompanhamento psicológico e precisam correr atrás sozinhas para tentar cuidar da própria saúde mental e física”, destaca.

Ser mãe de três já exige dedicação redobrada; com três filhos no espectro autista, os desafios se multiplicam e a rotina pode se tornar solitária. Rawielle relembra que, quando os trigêmeos eram pequenos, contava com o apoio das avós e de uma cunhada. Com o tempo, o envelhecimento das mães reduziu essa ajuda, e hoje quase toda a responsabilidade pelos cuidados dos filhos recai sobre ela e o marido.

“Infelizmente, muitas mães não têm apoio algum. Muitas criam os filhos sozinhas, algumas são abandonadas, e ainda enfrentam a falta de assistência e apoio do poder público. A maioria das mães atípicas vive preocupada apenas em conseguir levar os filhos para as terapias e garantir o básico do tratamento”, lamenta Rawielle.

AUTISMO
De acordo com o psicoterapeuta Paulo Silva Fernandes, o autismo, oficialmente chamado de Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a maneira como o cérebro processa informações, alterando a forma como o indivíduo percebe o mundo, interage socialmente, se comunica e se comporta.

“O TEA é compreendido atualmente como parte dos transtornos do neurodesenvolvimento, reconhecendo a diversidade de sintomas, comorbidades e trajetórias individuais. A identificação precoce do autismo é essencial para promover intervenções eficazes. Existem indicadores de desenvolvimento esperados em cada faixa etária”, pondera o especialista.

Segundo Rawielle Pascoal, a identificação do TEA nos trigêmeos ocorreu ainda quando eles eram bebês. Os irmãos idênticos não desenvolviam a fala conforme o esperado, enquanto o terceiro começou a pronunciar as primeiras palavras antes dos irmãos.

“Cada pessoa autista é única e precisa ser compreendida dentro das suas dificuldades e potencialidades. Muitas vezes, nós, mães atípicas, somos tachadas de ‘mães chatas’ porque lutamos pelos direitos dos nossos filhos. Mas ninguém vê a sobrecarga, o medo e o cansaço que vivemos diariamente. Não estamos pedindo privilégios, estamos lutando por direitos que já existem na lei, mas que muitas vezes não são cumpridos na prática”, finaliza Rawielle.

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