
Graciete Prioto é advogada, mãe de três filhos, esposa, amiga e apaixonada pela causa das mulheres. Vice-presidente da 11ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil -Montes Claros, ela se divide entre a carreira, a família e o voluntariado corporativo. Neste bate-papo, conheça um pouco dos desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho e nas posições de liderança.
O que te levou do início no Direito até a busca por espaços de liderança?
No início da minha carreira, em 2002, quando me formei, nunca imaginei que era uma profissão tão masculina. Foi quando cheguei a Montes Claros e comecei a trabalhar sozinha que percebi o quanto a sociedade limita espaços para nós, mulheres. Por isso, quando tive a oportunidade de estar onde muitos homens gostariam de estar, não hesitei em aceitar o desafio.
Ao longo da sua trajetória, qual foi o maior desafio enfrentado como mulher na advocacia e em que momento você percebeu uma virada na sua carreira?
Ao longo de toda a minha trajetória, imaginei que o meu maior desafio seria entrar em uma sala de aula e ministrar aulas, mas me enganei. O meu maior desafio como mulher na advocacia é conciliar a profissão com a maternidade, até porque nós, autônomas, não temos nem mesmo direito a licença por um período, tendo que continuar trabalhando dias após o parto. Mas foi a partir da maternidade que percebi a grande virada em minha carreira, pois, mesmo com todas as dificuldades, nos dedicamos mais para oferecer algo melhor aos nossos filhos.
Ser a primeira vice-presidente mulher da OAB Montes Claros representa mais conquista pessoal ou responsabilidade institucional, e o que isso muda, na prática, na sua atuação?
Na realidade, sou a segunda vice-presidente da OAB Montes Claros. A primeira foi a professora e Dra. Rita Edite, uma mulher que admiro e respeito muito pela sua história. Hoje, vejo que exercer este cargo é, de fato, uma grande responsabilidade institucional, pois percebi que, após a minha posse, muitas mais mulheres advogadas passaram a ocupar espaços que antes eram predominantemente masculinos. As advogadas perceberam que é possível estarmos onde queremos estar.
Na sua visão, as mulheres ainda enfrentam barreiras reais para chegar a cargos de liderança na advocacia ou isso já está mudando de forma consistente?
As mulheres ainda enfrentam muitas barreiras para chegar a cargos de liderança na advocacia, até porque homens apoiam homens e, muitas vezes, querem que nós, mulheres, ocupemos apenas cargos nos quais possam nos manipular. Por isso, é fundamental que nós, mulheres, nos apoiemos e estejamos juntas nessa conquista.
Entre cultura e estrutura, o que mais dificulta a ascensão feminina hoje, e como isso aparece no dia a dia da profissão?
O que mais dificulta a ascensão feminina a espaços de liderança são as múltiplas jornadas da mulher, que precisa conciliar profissão, filhos, companheiro e vida pessoal. É preciso que deixe de ser exceção ver mulheres ocupando cargos de alta liderança e que isso se torne algo comum, assim como ocorre com os homens.
Que tipo de liderança você exerce e quais comportamentos você considera inegociáveis no ambiente profissional?
Na minha opinião, exerço uma liderança acolhedora, com escuta ativa e valorização do bem-estar do grupo. Também adoto uma liderança firme, com visão clara e objetiva do que precisa ser feito para alcançar resultados, além de uma liderança intuitiva, baseada na sensibilidade para identificar quem precisa de apoio e orientação. São inegociáveis o respeito por todos, sejam homens ou mulheres, a honestidade, o tempo dedicado à vida familiar e os valores éticos.
Para mulheres que querem crescer na carreira jurídica, qual habilidade é indispensável hoje e o que ainda precisa mudar no sistema?
Para crescer na carreira jurídica, as mulheres precisam ter posicionamento claro, comunicar-se com segurança, demonstrar seu valor, construir uma rede de contatos (networking) sólida, estabelecer conexões genuínas, participar de eventos e grupos, definir limites, não aceitar sobrecarga e não tolerar desrespeito.
Para fechar, qual mensagem você deixaria para as mulheres que desejam equilibrar carreira, vida pessoal e família, mas encontram dificuldades?
A mensagem que deixo é que cada mulher tem um propósito e um caminho próprio. É preciso olhar de dentro para fora e entender quais são as perspectivas para a própria vida. Filhos são bênçãos, assim como a família, mas devemos lembrar que criamos filhos para serem independentes. Por isso, não devemos viver apenas para os outros; é importante viver também para nós, construindo uma história que sirva de exemplo.
