ENTREVISTA

Festas de Agosto terão emoção e expectativa sem Mestre Zanza

Evento volta às ruas após dois anos; será o primeiro sem o conhecido líder

Adriana Queiroz
22/07/2022 às 22:15.
Atualizado em 22/07/2022 às 22:21
 (Arquivo Pessoal)

(Arquivo Pessoal)

Está chegando agosto e com ele as festas que enchem de alegria e orgulho os moradores de Montes Claros. Após dois anos sem celebrações nas ruas devido à pandemia, é grande a expectativa pela retomada.  

Mas nem tudo será alegria. O coração vai ficar apertado ao ver que Mestre Zanza, um dos líderes nas manifestações folclóricas e que faleceu em outubro do ano passado, não estará presente. A responsabilidade será do filho, Mestre Zanza Junio, produtor cultural e, atualmente, gestor e coordenador geral da Associação dos Catopês Marujos e Caboclinhos.

As Festas de Agosto serão realizadas entre os dias 17 e 21 - a programação ainda não foi divulgada. O Norte bateu um papo com Mestre Zanza Junio sobre a infância ao lado do pai e os preparativos para o evento, tão importante para a região.
 
Como foi a infância com seu pai? 
Foi muito tranquila, só se falava de catopê (risos) desde a barriga da minha mãe ao som dos tambores, vivendo junto aos grupos e mestres, aprendendo os cantos e saberes. As histórias eram sobre catopês, marujos e caboclinhos, contos dos dançantes, dos festeiros, das Festas de Agosto. Ele sempre respirava as festas (risos). Foi a vida dele. 
 
Qual a importância das Festas de Agosto?
É uma festa ancestral, que mantém viva a tradição, ritos e fazeres do povo, preservando o presente e a futura geração. Este ato de preservação é mantido por todos os mestres, para a vida do povo, das pessoas, da comunidade e reforça o processo identitário do ser humano, o sentimento de pertencimento a cultura local que transcende o físico para o mundo espiritual. O levantamento dos mastros que é o eixo do mundo simboliza o lugar do céu na terra, juntos aos santos padroeiros Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e o Divino Espírito Santo. Em suma, a importância é física, espiritual, cultural e humana. 
 
Como a Associação tem divulgado a trajetória de Mestre Zanza?
Primeiro, mantendo vivo o legado de pai, o espaço que ele dedicou sua vida. Tudo lembra ele na associação. Cuidando e mantendo o lugar aberto a visitações. A presença dele é marcante em fotos, adereços e pintura, mantendo viva a imagem e trajetória dele. Estamos escrevendo uma livro em memória ao pai, criando o museu do catopê, fazendo atividades nas escolas, contação de história, em especial a história do mestre Zanza. 
 
depois de 2 anos sem Festas, por causa da pandemia, como estão os preparativos?
É um cenário novo, sem a presença do meu pai e dos mestres antigos. Meu pai foi o último daquela geração, ao mesmo tempo surge um frio na barriga, medo, e fico a pensar como será? Porém, algo extremamente importante, pois teremos a oportunidade de refletir como em um espelho a imagem, a presença e o amor pelas festas de todos eles, com nossas ações culturais, dedicação e calor humano. Todos estes mestres estarão lá no rosto de cada dançante, da população, das princesas, reis e rainhas, imperador e imperatriz. Os filhos, os netos, bisnetos, a família de cada um deles trazendo a vida em vez da morte. Esta está é nossa esperança. Estamos em pleno vapor (com os preparativos) todos dias, e os mestres unidos fazendo suas fardas, seus instrumentos e adereços. Já estamos tendo as visitas na casas dos mordomos e festeiros, saudosos para estar nas ruas juntos à comunidade. 

 
Como é assumir o legado do seu pai?
Toda vez que chegava próximo às festas, ele era fortalecido. Penso que estes dois anos que ele não foi o enfraqueceram. Enfim, os desígnios são de Deus nosso Senhor. Assumir o legado do meu pai é de extrema responsabilidade, algo que faço com muito cuidado, amor e respeito. Se eu chegar na pontinha do dedinho do pai, no ser humano que ele foi para a cultura, já basta (risos), mas o mais importante pra mim foi a aprovação dele, antes dele partir. Estava eu dando uma entrevista com ele, e eu, lá preocupado com que ia dizer e o pai só observando. Quando terminamos, perguntei pra ele “pai o que o Senhor achou?” Ele respondeu: “Filho você nasceu para isto! Pra mim, dentre outros pontos, foi marcante ter o consentimento dele, assumir seu legado. 
 
Quais os maiores desafios para voltar as ruas neste ano?
Manter e preservar a tradição, além de recursos para o mesmo. Mas o grande desafio será representar todos os saudosos mestres que cuidaram maravilhosamente bem das festas.

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