Muito além da bolsa de sangue

Especialista explica os processos que garantem a segurança antes da transfusão

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 26/08/2026 às 19:00.

No próximo mês de outubro, acontece no Rio de Janeiro o HEMO 2026 (Congresso Brasileiro de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular), um dos principais eventos da área. O Hemocentro de Montes Claros participa anualmente e, este ano, um dos temas é o combate à desinformação sobre a doação de sangue. Nesta entrevista, o biomédico Max Alencar, analista de Hematologia e Hemoterapia da Fundação Hemominas e professor do Centro Universitário FASI/Funorte, fala sobre a dinâmica da atuação na unidade, evolução e atualizações.

 
Existe algo que o público imagina ser simples, mas que envolve complexidades?
O melhor exemplo é justamente a bolsa de sangue. Pode parecer que é simplesmente coletar o sangue, colocar em uma bolsa e depois transfundir. Mas existe uma cadeia enorme por trás daquele produto: seleção e triagem do doador, coleta, identificação, processamento, separação dos hemocomponentes, testes laboratoriais, investigação imunohematológica, controle de qualidade, armazenamento, transporte e, finalmente, a transfusão. E existe um princípio que orienta todo esse processo: estamos trabalhando com um produto que será utilizado em outra pessoa. Portanto, cada etapa precisa ser feita com responsabilidade, pois estamos falando diretamente da segurança do paciente.
 
Como funciona a compatibilidade entre os diferentes tipos sanguíneos e riscos?
A compatibilidade não depende apenas de saber se uma pessoa é A, B, AB ou O. O sistema ABO e o fator Rh são os principais, mas existem diversos outros antígenos presentes nas hemácias que também podem provocar reações transfusionais. De maneira simplificada, nas transfusões de concentrado de hemácias, uma pessoa do grupo O não possui os antígenos A e B nas hemácias, enquanto uma pessoa AB possui ambos. Já o fator Rh também precisa ser considerado. Uma transfusão incompatível pode provocar uma reação imunológica grave, porque os anticorpos do paciente podem reconhecer as hemácias transfundidas como estranhas e destruí-las. Por isso, antes da transfusão, são realizados testes para verificar a compatibilidade entre o sangue do doador e o do receptor.
 
Por que o sangue é separado em hemácias, plasma e plaquetas?
Cada componente atende a necessidades diferentes. As hemácias são utilizadas principalmente para aumentar a capacidade de transporte de oxigênio; as plaquetas são importantes para a formação do tampão plaquetário e controle de sangramentos; e o plasma contém proteínas e fatores envolvidos na coagulação. Assim, uma única doação pode beneficiar mais de um paciente, dependendo dos componentes produzidos e das necessidades clínicas.
 
Quais exames são realizados em cada bolsa antes de ser liberada para uso e o que acontece quando há alterações?
São realizados testes para determinar a tipagem sanguínea, incluindo ABO e Rh, além de exames imunohematológicos e testes para investigação de anticorpos. Também são realizados testes para doenças transmissíveis pelo sangue, conforme os protocolos estabelecidos pelas autoridades sanitárias. Além disso, existem controles relacionados à qualidade dos hemocomponentes e às condições de processamento e armazenamento. Quando algum resultado traz alteração ou não atende aos critérios, a bolsa não é simplesmente liberada. Ela é segregada e passa por uma investigação e pelos procedimentos previstos nos protocolos. Dependendo da alteração, o hemocomponente pode ser considerado inadequado para transfusão e descartado. O objetivo é impedir que um produto que apresente risco chegue ao paciente. No armazenamento e transporte, a temperatura é um dos pontos mais importantes. Cada hemocomponente possui condições específicas de armazenamento e transporte. As bolsas permanecem em equipamentos apropriados, com monitoramento e registro das temperaturas. É fundamental manter a identificação e a rastreabilidade durante todo o processo, controlar os prazos de validade e evitar condições que possam comprometer a qualidade do produto. É uma cadeia muito controlada. Desde a coleta até a chegada ao serviço onde ocorrerá a transfusão, precisamos saber onde aquela bolsa esteve, em quais condições foi mantida e se todos os critérios de segurança foram cumpridos.
 
Alguns doadores são estratégicos para o Hemocentro?
Doadores com fenóti-pos sanguíneos raros ou características imuno-hematológicas específicas podem ser estratégicos, porque seus hemocomponentes podem ser necessários para pacientes que apresentam anticorpos contra determinados antígenos. Não existe apenas a preocupação de manter uma quantidade grande de bolsas. É necessário manter diversidade imunohematológica no estoque para atender pacientes com necessidades específicas.
 
Os pedidos de doação nunca cessam?
A necessidade de sangue existe todos os dias. Acidentes, cirurgias, tratamentos de câncer, transplantes, hemorragias e diversas outras situações podem exigir transfusão a qualquer momento. Campanhas pontuais são importantes, principalmente em momentos de estoque crítico, mas não conseguem substituir uma base regular de doadores. O doador habitual ajuda a manter os estoques mais estáveis ao longo do ano. Contar com pessoas que já conhecem o processo e estão aptas a doar é muito importante. Os hemocentros trabalham com estratégias de captação e comunicação com os doadores, respeitando os critérios de convocação e as condições necessárias para uma nova doação. Os pedidos nunca cessam, justamente porque o sangue não pode ser produzido artificialmente e também possui prazo de validade. Ou seja, não basta conseguir muitas doações em um determinado momento. É preciso manter um fluxo contínuo de doadores.
 
O que há de novo?
Houve avanços importantes na automação dos testes, na rastreabilidade, no controle de qualidade e na capacidade de detectar alterações imunohemato-lógicas com maior precisão. A automação trouxe maior padronização, agilidade e segurança para muitos procedimentos laboratoriais. Hoje existem equipamentos capazes de realizar e interpretar diferentes etapas dos testes imunohema-tológicos, reduzindo a variabilidade relacionada ao processo manual. Também evoluíram as técnicas utilizadas para identificação de anticorpos irregulares e investigação de incompatibilidades. Em situações mais complexas, a investigação pode envolver painéis de hemácias e outras metodologias especializadas, o que é especialmente importante, já que alguns pacientes desenvolvem anticorpos após transfusões ou gestações, e esses anticorpos podem dificultar a localização de uma bolsa adequada. A atualização precisa ser contínua. 

Compartilhar
Logotipo O NorteLogotipo O Norte
E-MAIL:jornalismo@onorte.net
ENDEREÇO:Rua Justino CâmaraCentro - Montes Claros - MGCEP: 39400-010
O Norte© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por