Legado de Laura e Glória

Em menos de 24h o Brasil perdeu duas grandes atrizes

Elpídio Rocha
cinemacomentado@gmail.com
Publicado em 22/08/2026 às 00:49.
 (Foto: Reprodução do Instagram/Câmara dos Deputados)
(Foto: Reprodução do Instagram/Câmara dos Deputados)

Esta semana que se encerra trouxe duas notícias tristes sobre o falecimento de atrizes consagradas do audiovisual brasileiro. Em menos de 24 horas, despedimo-nos de Laura Cardoso e Glória Menezes, atrizes que marcaram e construíram a história da televisão nacional. Laura morreu em São Paulo, aos 98 anos, na noite de 17 de agosto; Glória faleceu no Rio de Janeiro, aos 91, no dia seguinte. As duas trabalharam na pioneira TV Tupi em novelas como “Um Lugar ao Sol” (1959, estreia de Menezes na televisão) e “Há Sempre o Amanhã” (1960). Pela Rede Globo, encontraram-se nos sucessos de audiência “Rainha da Sucata” (1990) e “Senhora do Destino” (2004).

Nascida em São Paulo, em 1927, Laura Cardoso começou a carreira ainda adolescente, aos 15 anos, nas radionovelas da Rádio Cosmos. Sua formação foi construída na prática, no aprendizado cotidiano do rádio, da televisão e do palco, transformando-se numa atriz de técnica refinada, rigorosa e capaz de passear com extraordinária naturalidade entre a comédia, o drama e o patético.

No cinema, dois filmes ajudam a dimensionar a grandeza de Laura: “Terra Estrangeira” (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, em que interpreta Manuela, cujo falecimento, após perder as economias com o confisco do governo Collor, leva o filho Paco ao exílio em Portugal; e “Através da Janela” (2000), de Tata Amaral, como Selma, enfermeira aposentada e viúva que vive com o filho Raí, de 24 anos, numa relação marcada por forte dependência afetiva e uma intimidade edipiana, que fundamenta a estrutura dramática da obra. 

Na televisão, destaca-se Isaura, a mãe das gêmeas Ruth e Raquel, em “Mulheres de Areia” (1993); uma senhora aparentemente frágil que se torna uma força moral dentro da família. Em “Rainha da Sucata”, aparece como Iolanda, mãe da protagonista Maria do Carmo e figura inesquecível do núcleo cômico dos novos-ricos criado pelo autor Sílvio de Abreu. Interpretando as diversas facetas de quatro mães, “na telona e na telinha”, Laura Cardoso revela muito talento na construção de personalidades típicas e marcantes em cada papel. 

Glória Menezes nasceu em Pelotas, em 1934, e mudou-se ainda criança para São Paulo. Estudou na Escola de Arte Dramática da USP, embora não tenha concluído o curso, e sua formação profissional ganhou corpo nos palcos e nos teleteatros, até que a televisão a transformou numa de suas primeiras grandes estrelas. No cinema, Glória participou de “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, filme que conquistou a Palma de Ouro, em Cannes, e permanece como um dos grandes marcos do cinema brasileiro. Rosa é a esposa de Zé do Burro e apoia o marido em sua jornada teimosa para cumprir o prometido a Santa Bárbara; em Salvador, acaba seduzida pelo charme canalha de Bonitão. É uma personagem que amadurece ao longo da narrativa neorrealista reforçando o talento da atriz além da beleza evidente. 

Em “Independência ou Morte” (1972), de Carlos Coimbra, superprodução histórica de elenco estrelado e grande popularidade junto ao público, Menezes é a famosa Marquesa de Santos, amante do imperador e, segundo o filme, uma mulher articulada e astuta capaz de influenciar as decisões de Dom Pedro I – interpretado pelo marido da atriz, Tarcísio Meira. A química do casal já se consolidara na telenovela “Irmãos Coragem” (1970), em que a atriz encarna a mocinha Lara, que sofre do transtorno de múltiplas personalidades revelando a sensual e rebelde Diana e a equilibrada Márcia (fusão e cura das outras duas facetas). Em 1990, Glória brilha como Laurinha Figueroa, a elegante, venenosa e cômica vilã de “Rainha da Sucata”. Laurinha provou que a atriz sabia fazer muito mais do que a heroína clássica: podia ser sofisticada, engraçada e cruel sem deixar escapar o domínio da personagem.

Laura Cardoso e Glória Menezes pertenciam a uma geração para a qual atuar era um ofício antes de ser uma vitrine. Vieram do rádio, do teatro, dos teleteatros e dos estúdios ainda improvisados, aprenderam fazendo e permaneceram em cena por mais de seis décadas. Quando se olha para trás, percebe-se que suas carreiras se confundem com a evolução da dramaturgia brasileira. A morte das duas produz a impressão evidente de encerramento de um ciclo. Mas há um consolo: quem atravessou tantas gerações na tela não desaparece com facilidade; basta uma reprise, uma cena antiga, um filme encontrado ao acaso, e elas voltam. Por alguns minutos, a televisão e o cinema mostram que sabem imortalizar seus fantasmas mais queridos.

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