entrevista

Elisa Pires relembra caminhada que transformou o flamenco em um projeto de vida

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 08/07/2026 às 19:00.
 (Samuel Reis/Elefantte)
(Samuel Reis/Elefantte)

Há dez anos, uma sala de visitas em Montes Claros se transformava em palco para um sonho que parecia improvável: consolidar uma escola dedicada exclusivamente ao flamenco no interior de Minas Gerais. Uma década depois, o Pátio Flamenco celebra sua trajetória com o espetáculo “Recuerdos del Patio” e a décima edição do Festival Flamenco de Montes Claros. Nesta entrevista, a fundadora da escola, Elisa Pires, relembra sua história com a dança, fala sobre os desafios de difundir a cultura flamenca na região e compartilha os próximos passos de um projeto que se tornou referência cultural na cidade.
 
Quando a dança entrou na sua vida?
Ainda criança, fiz aulas de balé, jazz e também estudei um pouco de música no conservatório. Apesar dessas experiências, foi somente anos depois que encontrei a linguagem artística com a qual realmente me identifiquei. Em 2001, conheci o flamenco e foi uma paixão à primeira vista. Fiquei completamente encantada com a força, a expressividade e a emoção daquela arte. Em 2002, após me formar em Psicologia pela FUMEC, em Belo Horizonte, procurei uma escola para iniciar minhas aulas e mergulhei definitivamente nesse universo.
 
Em que momento você percebeu que queria transformar essa paixão em profissão?
Em 2005, fui convidada para dar aulas em um dos maiores espaços de dança flamenca de Belo Horizonte. Na época, ainda conciliava essa atividade com meu consultório de psicologia. Porém, em 2007, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: fechar o consultório e me dedicar integralmente à arte flamenca, acreditando que era esse o caminho que realmente fazia sentido para mim.

Em 2011, realizei um grande sonho ao abrir meu primeiro espaço em Belo Horizonte: o Pátio Espanhol, um projeto que reunia gastronomia espanhola, uma taberna flamenca para apresentações da minha companhia de dança e de artistas flamencos do Brasil e do exterior, além de uma escola de dança.

Como surgiu a ideia de criar uma escola especializada em flamenco?
O projeto nasceu da vontade de oferecer uma experiência completa da cultura espanhola, unindo arte, música, dança e gastronomia em um mesmo ambiente. Mais do que uma escola, o Pátio Espanhol se tornou um espaço de encontro, intercâmbio cultural e valorização do flamenco, proporcionando ao público vivências autênticas dessa arte tão rica e apaixonante.
 
Quais foram os principais desafios de implantar e manter um projeto de dança flamenca no interior de Minas Gerais?
Quando decidi voltar a morar em Montes Claros, não sabia se seria possível manter uma escola de flamenco na cidade. Até então, não existia nenhuma referência semelhante, o que gerava muitas dúvidas e inseguranças. Cheguei a pensar em voltar a atuar como psicóloga, mas percebi que meu verdadeiro desejo era continuar vivendo da arte.
Inicialmente, procurei as professoras Jaqueline Pereira e Luna, das escolas Balé Jaqueline Pereira e Luna Escola do Corpo, para ministrar aulas em seus espaços. No entanto, ao iniciar a divulgação, percebi que a procura era muito maior do que imaginava. Foi então que conversei com minha mãe e perguntei se ela permitiria transformar a sala de visitas da casa onde moramos a vida inteira em uma escola de dança. Com muito carinho e confiança, ela me apoiou imediatamente, e foi ali que nasceu o Pátio Flamenco em Montes Claros.
 
O que a motivou a trazer esse trabalho para Montes Claros?
Meu retorno a Montes Claros, após 21 anos morando em Belo Horizonte, foi motivado pelo desejo de estar mais próxima da minha mãe, dos meus irmãos e dos meus sobrinhos, com quem sempre tive uma relação muito forte.

Eu sabia que existia o risco de o flamenco não encontrar espaço na cidade, mas o inesperado aconteceu: logo no primeiro ano a escola recebeu mais de 80 matrículas. Esse acolhimento confirmou que havia um público interessado e mostrou que a arte flamenca poderia florescer também no interior de Minas Gerais, transformando vidas e criando uma comunidade apaixonada por essa cultura.
 
Como surgiu a ideia de contar a história do Pátio Flamenco por meio deste espetáculo?
Ao completar 10 anos em Montes Claros, percebi que nossa história merecia ser contada. O Pátio Flamenco não é apenas uma escola de dança; é um espaço de encontros, sonhos e transformações. Reviver essas memórias no palco é uma forma de homenagear todos que fizeram parte dessa caminhada e agradecer ao público que acreditou nesse projeto desde o início.
 
Como você avalia a evolução do interesse do público pelo flamenco em Montes Claros ao longo desses anos?
O crescimento foi surpreendente. O que antes era uma dança pouco conhecida hoje desperta curiosidade, encanta públicos diversos e forma novas gerações de bailarinos. O festival e o trabalho contínuo da escola contribuíram para criar um espaço de valorização dessa arte e para inserir o flamenco no calendário cultural da cidade.
 
Que legado você acredita que a escola deixa para a cultura de Montes Claros?
Acredito que o maior legado do Pátio Flamenco é mostrar que a cultura não tem fronteiras. Ao longo desses dez anos, a escola abriu espaço para uma manifestação artística até então inexistente na cidade, formando bailarinos, promovendo festivais e espetáculos, aproximando o público da cultura espanhola e contribuindo para enriquecer a diversidade cultural de Montes Claros. Mais do que ensinar dança, o Pátio Flamenco forma pessoas, fortalece a autoestima, cria laços afetivos e inspira novas gerações a acreditarem no poder transformador da arte.

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