
Nascida em Teixeira de Freitas (BA) e criada desde os primeiros anos em Montes Claros, Eduarda Porcino construiu uma trajetória marcada pelo Direito, pela pesquisa e pelo ativismo digital. Hoje, morando em Brasília (DF), atua como assessora jurídica na Fiscalização da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). É doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Desenvolvimento Social pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
Sua experiência com o ativismo social e os impactos da tecnologia na sociedade deu origem ao livro “Ciberativistas em tempos de capitalismo de vigilância”, que aborda os desafios da resistência e da participação política em um cenário cada vez mais mediado pelas plataformas digitais.
O que levou você a escrever o livro?
A ideia surgiu da minha experiência de mais de dez anos como ativista digital. Percebi como os algoritmos passaram a interferir na circulação de conteúdos nas redes. Isso ficou evidente no Filhas de Frida: mesmo com mais de 500 mil seguidores, muitos não recebiam o que publicávamos.
Essa experiência me levou a questionar o modelo de ativismo nas plataformas, já que, ao produzir conteúdo gratuitamente, também alimentamos a lógica econômica dessas empresas por meio da nossa atenção e dos dados gerados. Foi desse incômodo que nasceu a pesquisa que deu origem ao livro, buscando compreender os impactos dos algoritmos, da coleta de dados e da vigilância sobre o ativismo digital.
O que você pretende que o leitor entenda ao terminar a leitura?
Que ele seja mais crítico e consciente em relação às plataformas digitais, que estão profundamente incorporadas à nossa vida. Não se trata de defender o abandono das redes, mas de incentivar uma relação mais crítica e consciente com elas.
Você está há mais de dez anos à frente do Filhas de Frida. Como surgiu o projeto?
O Filhas de Frida surgiu quando eu tinha aproximadamente 15 anos, a partir de uma violência de gênero que sofri no ambiente online. A experiência me marcou, mas também me fez pensar em como transformar aquela dor em algo que pudesse ajudar outras pessoas. Inspirada no legado de Frida Kahlo, criei um projeto voltado ao acolhimento e à conscientização de mulheres vítimas de violência.
Inicialmente, a atuação era restrita a Montes Claros, mas o projeto cresceu e alcançou proporções nacionais. Passamos a atender também outros grupos em situação de vulnerabilidade, realizando palestras, eventos, ações educativas e parcerias com instituições, escolas e o Tribunal de Justiça.
Você percebeu mudanças na forma como as pessoas se mobilizam pelas redes?
Com certeza. Houve uma grande mudança na forma de mobilização e na própria liberdade dentro das plataformas. O algoritmo pode reforçar extremismos, dificultar o pluralismo político e exercer uma influência direta, embora muitas vezes sutil, sobre a manutenção do status quo.
Quais são os principais desafios de fazer ativismo no Instagram?
Existe uma percepção, entre os próprios ativistas, de que determinadas pautas sociais e políticas são tratadas pelas plataformas como conteúdos problemáticos ou “não Instagramáveis”. Não falo apenas de questões partidárias, mas de temas como direitos humanos, combate à violência contra a mulher e ao racismo e outras pautas sociais.
Por que é importante falar sobre o monitoramento de dados nas redes?
Porque praticamente todas as nossas atividades produzem dados. Ao usar uma rede social, fazer uma compra ou interagir com conteúdos, produzimos informações que podem ser coletadas, analisadas e utilizadas. Esses dados podem revelar preferências e aspectos sensíveis da nossa vida, além de permitir inferências sobre escolhas políticas, hábitos e rotina.
Depois de tantos anos no ativismo digital, o que mudou na sua forma de enxergar as redes?
As redes passaram de plataformas para criação de comunidades em torno de ideias para uma espécie de shopping virtual, que também utiliza o ódio e o extremismo como formas de engajamento.
O que significa “capitalismo de vigilância”?
O termo foi cunhado pela autora norte-americana Shoshana Zuboff para definir uma nova forma de capitalismo baseada na extração e comercialização de dados. Empresas como o Google passaram a utilizar as informações fornecidas pelos usuários para criar perfis e transformar esses dados em uma fonte extremamente rentável. É nesse processo que se estrutura o chamado capitalismo de vigilância.
