
Na segunda reportagem da série especial sobre maternidade, acompanhamos a trajetória de Cristina Pierroti Aun Dotta, engenheira florestal que, após superar o câncer de colo de útero, realizou o sonho de ser mãe ao receber o resultado positivo de gravidez: um marco de superação e recomeço.
A doença deixou marcas profundas e, entre as sequelas, veio também a dificuldade para engravidar. O sonho da maternidade passou, então, a depender da ciência, da coragem e de uma caminhada emocionalmente exaustiva: a fertilização in vitro (FIV).
O resultado tão desejado veio logo na primeira tentativa — algo considerado raro. Segundo o especialista em reprodução assistida, Matheus Coelho Prudêncio, a maior parte das gestações por FIV acontece geralmente em três ou quatro ciclos. Hoje, o pequeno Miguel, de dois anos, simboliza mais do que a realização de um sonho: ele representa esperança após anos de medo, incertezas e superação.
Após o diagnóstico do câncer de colo de útero, vieram cirurgias, tratamentos e a esperança silenciosa de que, além da cura, ainda fosse possível realizar o desejo de ser mãe. Aos 34 anos, após não conseguir engravidar naturalmente, ela decidiu iniciar o processo de fertilização in vitro. Tentou tratamentos em São Paulo, mas foi em Belo Horizonte que recebeu a notícia que mudaria tudo.
“A alegria de segurar aquele exame é indescritível. Eu nunca fui a mulher que ouviu o ‘relógio biológico’ tocar alto, mas eu sabia que queria ser mãe. Quando o Miguel nasceu, tudo mudou. Ser mãe é aceitar que você não é mais a única dona da sua agenda e que a decoração da casa agora inclui brinquedos espalhados e uma nova rotina, movida pelo sorrisinho e pela esperteza de um menininho que enche nossos dias”, conta emocionada.
Apesar do desfecho feliz, Cristina faz questão de lembrar que a FIV está longe de ser um caminho simples. Além da carga emocional, existe o peso financeiro. O tratamento pode custar entre R$ 20 mil e R$ 40 mil, sem contar os medicamentos. Na tentativa de aumentar as chances de sucesso, a médica responsável indicou duas coletas sequenciais de óvulos, estratégia que amplia a possibilidade de formação de embriões.
“Além da pressão emocional do ‘será que vai dar certo?’, existe a angústia do ‘até quando poderemos pagar?’. Conheço casais que tentaram dezenas de vezes; outros que não resistiram à pressão e se separaram. O sonho da maternidade, nessa faceta, tem um rosto triste e solitário”, desabafa.
Hoje, ao olhar para o filho correndo pela casa, Cristina sabe que viveu um final feliz, mas reconhece os inúmeros obstáculos enfrentados até chegar ali. “Graças ao olhar humano de médicos que decidiram preservar meu útero e à precisão da equipe de reprodução assistida, hoje tenho meu filho nos braços. Mas sei, também, que esse caminho é minado de obstáculos. Neste Dia das Mães, meu coração transborda gratidão a Deus por vencer a doença, por ter os recursos necessários e uma família que nunca soltou minha mão. Às mães, desejo um dia repleto de abraços carinhosos. E às ‘tentantes’, desejo força. Que tenham foco, mas que não se percam ou se anulem no processo. A jornada é dura, mas a vida que floresce dela faz cada passo valer a pena. Que tenhamos uma vida leve e feliz!”, finaliza.
FERTILIZAÇÃO IN VITRO
A fertilização in vitro (FIV) é um tratamento de reprodução assistida utilizado quando o casal enfrenta dificuldades para engravidar naturalmente. O procedimento acontece em laboratório: os óvulos são retirados dos ovários da mulher e fertilizados pelos espermatozoides fora do corpo. Depois da formação dos embriões, um ou mais são transferidos para o útero, onde a gravidez pode se desenvolver.
O médico especialista em FIV em Montes Claros, Matheus Prudêncio, explica que isso pode acontecer, como no caso de Cristina: lesão no útero, obstrução tubária, fator masculino moderado a grave, falha de tratamentos mais conservadores prévios, endometriose moderada a grave, idade materna avançada (especialmente acima dos 40 anos) e, em alguns casos, infertilidade sem causa aparente.
“Não limite de tentativas. Porém, após o quarto ciclo, conversamos sobre a possibilidade de óvulos ou espermatozoides doados — temos um banco de doação anônima. E não há uma idade máxima universal obrigatória. Entretanto, sabe-se que as taxas de sucesso diminuem progressivamente com o avanço da idade, ao mesmo tempo em que os riscos maternos aumentam”, pondera o especialista.

