
Kaike Ramos Nobre Maia, de 21 anos, é conhecido artisticamente como KAZIN. Nascido em Lagoa dos Patos, no Norte de Minas, viveu na cidade até os 12 anos de idade. Ao longo da vida, passou por diferentes cidades do Brasil, mas foi em 2019 que chegou a Montes Claros, onde reside até hoje e onde sua trajetória artística começou a se consolidar.
Desde então, KAZIN tem vivido momentos marcantes como artista independente no Norte de Minas. Em Montes Claros, dividiu o palco com grandes nomes da música brasileira, como Marina Sena, Racionais MCs e Teto, entre outros. Também participou de importantes eventos regionais, como UAI Festival, Electrobeer e Samba de Milhões, além de integrar ativamente o cenário underground da cidade.
Seu trabalho foi reconhecido com o prêmio “Artista do Ano” pelo Pequi Dourado, movimento cultural de Montes Claros que valoriza e revela novos talentos da música norte-mineira.
Além da carreira artística, KAZIN atua como CEO do selo Dubairro Máfia, iniciativa criada com o objetivo de revelar e impulsionar artistas locais de grande potencial, ampliando seus horizontes e levando suas produções para novos espaços de visibilidade, reconhecimento e valorização.
Nesta entrevista, o artista compartilha a história de seu pai, Sandro Ramos, e apresenta os projetos, álbum e documentário, que preservam e celebram a memória e o legado artístico deixado por ele.
Quem foi Sandro Ramos além do palco, e como essa essência influenciou a música do Balança Pança?
Sandro Ramos, além de um artista completo, foi um pai presente, que sempre buscou oferecer o melhor para sua família, mesmo diante das dificuldades. Durante a pandemia, período em que os palcos se calaram, eu e ele trabalhamos como serventes de pedreiro, garantindo que nada faltasse em casa. Mesmo após a descoberta do câncer da minha mãe, Gracielle Nobre, em 2023, ele nunca deixou de lutar pela família.
A banda Balança Pança marcou uma geração no Norte de Minas. O que você acredita que fez essa conexão tão forte com o público entre 2005 e 2018?
A infância humilde do meu pai, vivida na roça ao lado de seus oito irmãos, influenciou diretamente suas músicas na banda Balança Pança. Em letras como “História de Infância”, ele retratava uma vida simples, pobre, mas repleta de amor e companheirismo. A forte conexão da banda com o público vinha de letras reais, marcantes e, muitas vezes, bem-humoradas. Canções como “O Coroné”, “O Guarda” e “Menino Lindo” marcaram o auge do grupo.
Como foi, para você, Kaike, crescer vendo seu pai viver intensamente a música e lutar por esse sonho?
Cresci viajando pelo Brasil ao lado do meu pai, me apresentando com ele desde cedo. Muitas vezes me via encantado, com os olhos brilhando, percebendo o quão grandioso ele era para mim e sonhando em um dia seguir seus passos. Acredito que artistas nunca se vão; eles se tornam caminhos e inspirações. Mesmo após o falecimento do meu pai e dos meus tios, o Balança Pança segue vivo na memória e nas festas do Norte de Minas.
Após a partida de Sandro Ramos e, depois, de Zelândia Ferreira e Paulo Célio, como você enxerga o encerramento simbólico desse ciclo artístico do trio?
Acredito que artistas nunca se vão; eles se transformam em caminhos, estradas que servem como inspirações. Como meu pai, foi minha inspiração para esse disco.
O álbum “MINHA VEZ: DIAS ANTES” carrega uma narrativa muito pessoal. Em que momento você sentiu que transformar essa história em música era necessário?
Em 2023, perdi meu pai. Pouco tempo depois, em 28 de agosto de 2024, perdi minha mãe para o câncer. Entrei em uma profunda depressão, sentindo que meu mundo havia acabado. Do luto nasceu o álbum “Minha Vez: Dias Antes”, escrito ao longo de 2025, onde cada música representa episódios da minha dor e da tentativa diária de seguir em frente.
O sucesso imediato do álbum nas plataformas digitais revela uma forte resposta do público. O que você acha que as pessoas reconhecem e sentem ao ouvir esse trabalho?
O disco é uma homenagem aos meus pais, Sandro Ramos e Gracielle Nobre, e reforça a importância da família, pois, como digo em uma das faixas: “a maior riqueza é ter sua família em casa.”
O documentário “MINHA VEZ: DIAS ANTES — Nenhum sonho é grande demais” resgata Sandro aos 25 anos, no início da caminhada. Qual mensagem você espera que os jovens artistas levem dessa história?
O documentário traz uma mensagem clara: não importa qual seja sua origem, nenhum sonho é grande demais.
De que forma a memória de Sandro Ramos continua influenciando a cena cultural e musical do Norte de Minas hoje?
Mesmo que a banda Balança Pança não esteja atuando hoje, suas músicas continuam tocando em festas regionais com o objetivo de manter viva a memória do saudoso trio de irmãos.
A homenagem da Câmara Municipal de Lagoa dos Patos, dando o nome de Sandro Ramos a uma rua, o que representa para a família e para a cultura local?
Para a família, é motivo de orgulho ver que meu pai dará o nome a uma rua na cidade em que o viu nascer como artista, mostrando ainda mais o carinho e impacto que ele causou na vida dos moradores e músicos da cidade.
Quando você olha para o legado deixado por seu pai, qual você acredita ser a maior herança que ele deixou para a música e para as próximas gerações?
A maior herança que meu pai me deixou foi todo o ensinamento que tive no pouco tempo que Deus nos deu. Tudo que sei hoje sobre música foi pelo meu pai, aprendi a ser um artista completo e, o mais importante, aprendi quais eram os valores e deveres de um homem.
