
De Montes Claros para o mundo. As máscaras confeccionadas pelo artista plástico e grafiteiro Cleiton Cruz ganharam destaque nos shows da cantora norte-mineira Marina Sena durante o Rock in Rio 2026. Conhecido pelos traços que ajudam a colorir e transformar a paisagem urbana, especialmente no Centro Histórico de Montes Claros, Cleiton leva agora sua arte para um dos principais festivais de música do país.
Nesta entrevista, o artista plástico fala sobre sua trajetória, a identidade norte-mineira presente em seu trabalho e a projeção de sua arte para além das fronteiras da região.
Quando a arte de desenhar surgiu em sua vida?
A arte do desenho surgiu fortemente de forma consciente aos 10 anos de idade. Nesse momento, eu percebi que poderia fazer desenho e que tinha habilidade. Dessa percepção para adiante, fui evoluindo o traço até chegar à pintura. Eu me tornei um pesquisador autodidata dos movimentos artísticos.
Você é grafiteiro também. Profissão essa que já foi muito marginalizada, confundindo-a com vandalismo. Como você enxerga essa arte? Acredita que ainda há preconceito?
O graffiti é um movimento de vanguarda, uma arte que ocupou seu espaço no mundo todo, hoje está em várias galerias importantes do planeta e tem artistas renomados que saíram da marginalidade para o estrelato. O graffiti tem derrubado várias barreiras, quebrado tabus e penetrou em vários circuitos de repercussão mundial; o preconceito no Brasil diminui a cada dia. Contudo, ainda tem pessoas que não entendem o Movimento Hip Hop e promovem campanha contra os artistas grafiteiros. Na cidade de Montes Claros, a aceitação é muito boa. Claro que tem pessoas que não curtem, porém são minoria hoje.
Pela cidade podemos ver um pouco de você na arte: muros com seus desenhos, nos quais você mistura sua identidade com a arte montes-clarense. Como você define sua arte?
A minha arte é produto da minha raiz cultural norte-mineira. Misturo a linguagem do Hip Hop com nossa cultura ancestral, nosso cerrado, a fauna da região. Acredito que a linguagem existe para ser ressignificada, e por esse motivo diálogo com a cultura local sempre que estou pintando. A minha arte é miscigenação devido as várias influências que a minha cultura apresenta no curso da história.
Quando você decidiu criar máscaras? E como introduziu elas na cultura de Montes Claros?
As máscaras têm origem nas culturas portuguesa e africana e fazem parte da Marujada há cerca de 200 anos. Entre 1978 e 2023, porém, deixaram de ser produzidas e usadas nos rituais, e a tradição de sua confecção acabou se perdendo. Em 2023, o Mestre Tim me desafiou a produzir 100 máscaras para o grupo de marujos. Pesquisei referências portuguesas e africanas e, inspirado na última máscara usada pelo saudoso Mestre Nenzinho, desenvolvi uma nova técnica de confecção. Passei a imprimir nelas meu próprio traço artístico, criando peças realistas, com personalidade e únicas, sem repetir escala ou expressão.
Como surgiu a parceria com Marina Sena? Ela solicitou alguma característica específica ou deixou o tema livre?
Tive uma liberdade criativa muito ampla para a confecção das máscaras da Marina Sena; a equipe dela foi muito cordial comigo e me deu total liberdade. Expliquei que cada máscara teria suas particularidades; tudo fluiu muito bem. O efeito plástico no palco foi absurdo e eu estou muito feliz com a repercussão e a valorização da nossa cultura ancestral como laboratório máximo de criação artística.
