Vida nas Estradas

Caminhoneiro relata desafios e conquistas da vida nas rodovias

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 26/06/2026 às 19:00.
Para Reinaldo Ferreira Nascimento, vida na estrada exige coragem, renúncias e resistência (Arquivo pessoal)
Para Reinaldo Ferreira Nascimento, vida na estrada exige coragem, renúncias e resistência (Arquivo pessoal)

Enquanto muita gente ainda dorme, milhares de caminhoneiros já enfrentam horas na estrada, entre longas distâncias e a saudade da família. Há 26 anos na profissão, Reinaldo Ferreira Nascimento, de 53 anos, afirma que a rotina é difícil, marcada por dias longe de casa e incertezas pelo caminho, mas diz nunca ter deixado de viver o sonho de dirigir caminhão. 

Reinaldo é o personagem da última reportagem da edição especial Vida nas Estradas, série que acompanha histórias de profissionais responsáveis por transportar boa parte da riqueza produzida no Brasil. Em um país onde mais de 60% das cargas são movimentadas pelas rodovias, os caminhoneiros desempenham um papel essencial para a economia, mesmo enfrentando uma infraestrutura que, muitas vezes, aumenta os riscos da profissão.

Os desafios enfrentados por Reinaldo são compartilhados por milhares de motoristas. Dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram que o Brasil ainda convive com milhares de pontos críticos nas rodovias, incluindo buracos, erosões, quedas de barreiras e pontes danificadas. A última pesquisa realizada pela Confederação, em 2024, identificou 2.446 pontos críticos na malha rodoviária federal, cenário que impacta diretamente a segurança e o custo do transporte.

Reginaldo Ferreira percorre com frequência o trajeto entre Montes Claros e Recife. Ele atua tanto como motorista de uma companhia de bebidas quanto como caminhoneiro agregado, utilizando o próprio veículo para realizar os fretes. Ao longo do percurso, enfrenta uma realidade conhecida por quem vive nas estradas: curvas sinuosas, longos trechos de pista simples, pavimento deteriorado e a ausência de acostamentos em diversos pontos, fatores que tornam a viagem ainda mais desafiadora e aumentam os riscos para quem passa horas ao volante.

“Estar na estrada é realizar um sonho, mas também conviver diariamente com o medo. Toda vez que saio de casa, tenho fé de que vou voltar. Graças a Deus, sempre retornei, mas, nesses 26 anos de profissão, vi muitos colegas não terem a mesma sorte. Nem todos os acidentes acontecem por imprudência. As condições precárias de muitas rodovias também colocam a vida de quem trabalha nelas em risco,” desabafa o motorista. 

“Estar na estrada é realizar um sonho, mas também conviver diariamente com o medo. Toda vez que saio de casa, tenho fé de que vou voltar. Graças a Deus, sempre retornei, mas, nesses 26 anos de profissão, vi muitos colegas não terem a mesma sorte. Nem todos os acidentes acontecem por imprudência. As condições precárias de muitas rodovias também colocam a vida de quem trabalha nelas em risco”, desabafa o motorista.

SAUDADE
Se os perigos da estrada preocupam, a distância da família é outro desafio diário. Datas comemorativas, aniversários e momentos importantes muitas vezes são acompanhados apenas por chamadas de vídeo ou mensagens de celular. Mesmo assim, Reinaldo diz que aprendeu a transformar a saudade em combustível para seguir viagem.

“Cada entrega concluída é pensada em voltar para casa. A estrada ensina muita coisa: paciência, responsabilidade e respeito pela vida”. Depois de mais de duas décadas cruzando o país, ele conhece bem os riscos de cada curva, mas também carrega o orgulho de fazer parte de uma categoria que mantém supermercados abastecidos, hospitais funcionando e a economia brasileira em movimento.
 
ESTRADAS
O número de acidentes nas estradas brasileiras segue elevado. Dados da Polícia Rodoviária Federal e da CNT apontam 73.114 acidentes nos últimos dois anos, com 6.153 mortes e prejuízo estimado em R$ 16 bilhões. Especialistas atribuem os casos, principalmente, à fadiga, excesso de velocidade e distrações ao volante.

No Norte de Minas, a BR-251 é uma das rodovias que mais preocupam os motoristas. Com tráfego intenso de caminhões, pista simples e trechos sinuosos, a estrada registra acidentes frequentes. Na última terça-feira (23), um caminhão com mais de 20 toneladas de areia caiu em uma ribanceira; o motorista morreu no local.

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