entrevista

Bruno Rezende: ‘segurança pública se faz com pessoas’

Delegado fala sobre os desafios da Polícia Civil no Norte de Minas

Vanessa Araújo
vanraraujo@gmail.com
Publicado em 03/06/2026 às 19:00.
 (Arquivo pessoal)
(Arquivo pessoal)

Com mais de uma década à frente da Delegacia de Homicídios de Montes Claros e atualmente responsável pela coordenação da Polícia Civil em 24 municípios do Norte de Minas, o delegado Bruno Rezende da Silveira acompanhou investigações de crimes contra a vida e as mudanças nos índices de criminalidade da região. Natural de Montes Claros, participou do trabalho desenvolvido pelas forças de segurança durante o período de redução dos homicídios no município. Nesta entrevista, Bruno fala sobre sua trajetória profissional, os desafios da segurança pública no Norte de Minas, a valorização dos servidores e os impactos da rotina policial.
 
De onde você é e como foi sua formação até chegar ao Direito?
Sou natural de Montes Claros, com trajetória construída no Norte de Minas, região onde desenvolvi praticamente toda a minha carreira. Minha formação acadêmica começou no Direito, com especialização em Direito Civil e Processual Civil, e posteriormente busquei me aprofundar na área de segurança pública, com especialização em Análise da Criminalidade, Violência e Segurança Pública pela Unimontes. Essa formação foi essencial para compreender a segurança pública de forma mais estratégica e baseada em dados.
 
Em que momento decidiu que queria ser delegado? 
Foi ainda na época da faculdade. Eu queria uma carreira que unisse o Direito com uma atuação mais prática, mais próxima da realidade das pessoas. A função de delegado tem muito isso — você precisa pensar juridicamente, mas também agir, investigar, tomar decisões importantes. Isso me chamou atenção desde o início.

Você passou muitos anos na Delegacia de Homicídios. Como esse período moldou sua visão de segurança pública? 
Foram mais de dez anos à frente da Delegacia de Homicídios de Montes Claros, um período muito marcante na minha trajetória. Essa experiência mostrou, na prática, a importância da investigação qualificada, do trabalho integrado e do uso de inteligência para o enfrentamento da criminalidade. Conseguimos uma redução significativa dos homicídios na cidade, saindo de 126 casos em 2012 para 19 em 2019, com altos índices de elucidação. Isso reforçou em mim a convicção de que segurança pública se faz com planejamento, persistência e atuação conjunta entre as instituições.
 
Quais foram os maiores desafios pessoais ao lidar diariamente com crimes tão extremos? 
Sem dúvida, o maior desafio é separar o lado profissional do pessoal. A gente lida com situações muito duras, que envolvem dor, perda, famílias destruídas. Manter o equilíbrio emocional para continuar trabalhando com lucidez e responsabilidade é essencial. Com o tempo, você continua tentando ainda mais a aprender a ter esse controle, mas nunca deixa de ser algo que exige atenção.
 
Em algum momento esse tipo de trabalho afeta o emocional? Como você lida com isso? 
Afeta, sim. Seria até preocupante se não afetasse em nenhum momento. Somos humanos antes de qualquer função. O que procuro fazer é manter esse equilíbrio com o apoio da família, que é minha base, e também com foco no propósito do trabalho. Saber que estamos contribuindo para a justiça e para a segurança da sociedade ajuda a dar propósito ao que fazemos.
 
Quais são os maiores desafios da segurança pública no Norte de Minas hoje? 
O Norte de Minas tem desafios importantes, como a grande extensão territorial, a diversidade entre os municípios e a necessidade constante de integração entre as forças de segurança. Além disso, o enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado continua sendo uma prioridade. Trabalhar de forma estratégica é fundamental nesse cenário.
 
A região tem especificidades que dificultam o trabalho policial?
Sim, principalmente pela dimensão territorial e pela quantidade de municípios menores e mais afastados. Isso impacta na logística, no deslocamento e até no acesso a recursos. Por outro lado, também temos um conhecimento muito próximo da realidade local, o que ajuda bastante na atuação.
 
O crime na região mudou nos últimos anos? Em que sentido? 
Mudou, sim. Hoje vemos uma atuação mais estruturada de organizações criminosas, especialmente ligadas ao tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, a tecnologia também passou a ter um papel maior, tanto para o crime quanto para a investigação. Isso exige uma adaptação constante por parte das forças de segurança.
 
Qual o papel da inteligência policial hoje no combate à criminalidade local? 
A inteligência policial é fundamental. Ela permite que a gente atue de forma mais estratégica, antecipando ações criminosas e direcionando melhor os recursos. Hoje, não se faz segurança pública eficiente sem investimento em inteligência, análise de dados, integração de informações e controle e combate da lavagem de dinheiro.
 
O que você considera prioridade na sua gestão neste momento? 
A prioridade é fortalecer a atuação integrada, valorizar os profissionais e investir em estratégias que aumentem a eficiência das investigações. Também buscamos aprimorar o uso da inteligência policial e dar suporte às unidades para que consigam responder de forma rápida e qualificada às demandas da população, cuidando sempre dos nossos servidores para que também possam proteger e servir bem à sociedade.
 
Se pudesse mudar uma coisa na estrutura da segurança pública hoje, o que seria?
Eu destacaria a valorização do servidor. A segurança pública é feita, antes de tudo, por pessoas, profissionais que estão diariamente lidando com situações de alta complexidade e pressão. Investir na valorização passa por melhores condições de trabalho, reconhecimento, capacitação contínua e também cuidado com a saúde mental desses profissionais. Quando o servidor está valorizado e motivado, isso reflete diretamente na qualidade do serviço prestado à população.

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