
Nascida em Nanuque e criada em Montes Claros desde os seis anos, Bernadete Guimarães transformou a cozinha em pesquisa, memória e identidade cultural. Chef, pesquisadora e entusiasta da gastronomia geraizeira, ela ajudou a consolidar projetos ligados aos sabores do cerrado e do sertão mineiro, levando ingredientes e tradições do Norte de Minas para festivais, expedições gastronômicas e eventos internacionais. Entre lembranças afetivas, histórias de cozinha e valorização do território, Bernadete fala sobre o que move sua trajetória e o orgulho de defender a cultura alimentar da região.
Sua trajetória passa pela pesquisa, pela cultura alimentar e pela valorização do território. Em que momento você entendeu a gastronomia como algo maior do que cozinhar?
Ainda criança, com brincadeiras em torno da cozinha, os brinquedos além das bonecas eram panelinhas de barro, presentes do meu pai, que gostava de cozinhar e acho que viu meu interesse. Desde muito cedo já pesquisava não só sobre as receitas, mas queria saber porque eram feitas daquela forma. Livros de pesquisa que existiam eram de difícil acesso, internet não existia. Até hoje tenho, coladas em cadernos, reportagens, informações sobre tudo que encontrava.
Quando você pensa em memória afetiva ligada à comida, quais sabores, aromas ou cenas vêm primeiro à cabeça?
Sabores de infância e a curiosidade de experimentar tudo. Aromas da casa, dos preparos com antecedência e mais longos do que hoje, da bacia de pimentas com água esperando subir as que iriam ser descartadas para depois serem transformadas em conservas de pimenta. Do feijão de molho para ser cozido no outro dia, das carnes de panela durante horas cozinhando e que descobri anos depois que é a técnica “pinga e frita”. Dos doces no tacho e no fogão a lenha. Do pé de abacate e de goiaba branca que amo até hoje.
A cozinha mineira carrega muita tradição oral. O que você aprendeu ouvindo, observando e convivendo com outras pessoas ao redor da comida?
As formas de preparo, de conservar, de fazer, que infelizmente se perdem com o tempo, principalmente por causa dos novos equipamentos e preparos. Assim como tudo que nos permeia, o desenvolvimento e descobertas de otimizar e melhorar os processos passam também pela cozinha. Mas esta oralidade deve ser resgatada e registrada, tudo e todo o “novo” nasce através e por ela.
Sua pesquisa sobre a gastronomia do cerrado e a cultura geraizeira se tornou uma marca do seu trabalho. Como nasceu esse interesse pelos ingredientes e saberes da nossa região?
Desde a infância comendo, roendo coquinho macaúba, pequi, jatobá, cagaita, buriti, e tantos outros frutos que naturalmente fizeram parte da minha trajetória alimentar. Durante os trabalhos realizados na culinária, brotou em mim admiração, curiosidade e muitas vezes perplexidade em outros da região não conhecerem tanta riqueza.
O cerrado é um bioma extremamente rico, mas pode ainda ser desconhecido por muitos. Quais frutos, ingredientes ou preparos da nossa região você acredita que merecem mais reconhecimento?
São alimentos de uma grandiosidade de potência alimentar e variedades de preparo e receitas. A Macaúba, por exemplo, é rica em fibras, que contribuem para o bom funcionamento do intestino e promovem a saciedade. Por ser calórica e nutritiva, é uma excelente fonte de energia para quem pratica atividades físicas ou busca manter uma dieta equilibrada. Energia natural. Alimentos do Cerrado são energia que vem do sol, muito sol! Alimentos do futuro que serão transformados em grandes potências alimentares.
Entre tantos projetos, pesquisas e experiências, você consegue escolher um para representar o que a gastronomia representa na sua vida?
São inúmeros. Posso citar o Circuito Turístico da Cachaça em Salinas; o Sabores do Gerais; o Festival de Gastronomia da ACI Montes Claros; a Cozinha do Garimpo, em Grão Mogol; a expedição sobre o queijo do Norte de Minas; a Expedição Sertão Norte MG – Gastronomia e Cultura, que levou o Norte de Minas ao Tierra Madre, na Itália; a Expedição Sabores do Alto Rio Pardo; a Rota dos Sabores, em Taiobeiras; o Concurso Roedor do Pequi; o projeto Saberes e Sabores no Campo das Vertentes; além do Conexão, Sabor, Arte, Negócios. Todos realizados com parceiros muito especiais.
Quando olha para a própria trajetória, qual legado você acredita estar construindo para a gastronomia mineira e geraizeira?
Acredito que os estudos, pesquisas, principalmente as receitas autorais experimentadas e apresentadas, e o desenvolvimento através da união com pessoas com as mesmas características de busca das tradições, da cultura alimentar e da valorização dos ingredientes do terroir e do território Gerais e Cerrado.
