
Em um cenário em que conciliar múltiplos papéis deixou de ser exceção e passou a ser rotina, histórias de mulheres que transitam com naturalidade entre diferentes frentes ganham relevância. A empresária e jornalista Ariane Galdino é um desses exemplos: entre a gestão de negócios, a atuação na comunicação, a vida pessoal e o engajamento em causas voluntárias, ela revela como organiza prioridades, enfrenta desafios e redefine, na prática, o conceito de mulher multifacetada. Escritora, Galdino está com seu livro de estreia “Fale comigo como criança, por favorzinho”, no Festival Literário do Autor Montes-clarense (FLAM), que vai até o dia 15 de abril.
Quem é Ariane Galdino hoje e como a comunicação a levou do jornalismo ao empreendedorismo?
Sou empreendedora, comunicóloga, palestrante, escritora, mentora, mãe de dois meninos, apaixonada pelo que faço e empenhada em fazer o meu melhor. Penso que a minha atuação, que transita entre o varejo de luxo (Cris Joias), a moda masculina (Classic Men’s Club) e o associativismo na Federaminas Mulher e na Associação Comercial e Industrial de Montes Claros, acaba me definindo como uma facilitadora de conexões. O jornalismo me ensinou o poder da escuta ativa e da narrativa.
Em que momento empreender deixou de ser uma opção e virou um caminho definitivo na sua vida?
Foi por necessidade e também por oportunidade que começamos a empreender. A Cris Joias se tornou uma missão para meu marido e eu, que deu muito certo. Conseguimos imprimir neste negócio as nossas visões de mercado e toda a dinâmica com a qual gostamos de trabalhar. Isso foi primordial para que logo nos apaixonássemos pelo setor.
Você construiu negócios, lidera pessoas e agora também escreve — o que conecta todas essas frentes?
Nos meus negócios, eu lido com produtos, lido com momentos e autoestima. Na liderança e na mentoria, eu lido com processos, lido com sonhos e carreiras. Acho que sou boa em ler as pessoas e em utilizar certa empatia estratégica para fazer essas conexões.
Qual foi o momento mais crítico da sua trajetória empresarial e o que você fez diferente para não quebrar?
Tive vários (rsrsrs), mas o assalto que sofremos em 2017 foi muito complicado. Perdemos muita coisa e não reavemos nada. O seguro não foi suficiente para sanar o grande prejuízo. E perder meus pais também foi muito difícil e impactou na maneira como passei a lidar com a vida após os lutos.
Liderar empresas sendo mulher ainda exige mais estratégia ou mais resistência emocional?
Os dois, um pouco mais de resistência emocional por todas as questões mulheris que fazem parte dos meus cenários. Os turnos a mais, obrigações maternas, os hormônios que já estão começando a mudar bastante meu comportamento. Muitas caraminholas sobre a vida da mulher e o nosso posicionamento quanto ao mundo. Eu penso que atualmente passo por menos coisas do que passava antes, até pela maturidade e pela credibilidade que construí, mas ainda me incomoda ver outras mulheres, muitas vezes, nadando contra a maré, lutando com tubarões e tentando não afogar. Acho que por isso eu carrego as bandeiras que sustento, porque muitas coisas me incomodam e logo penso em agir sobre elas.
Você fala muito sobre desenvolvimento e liderança — o que mais falta hoje em quem quer empreender?
Pergunta difícil. Penso que posso responder dizendo que, se acreditássemos mais no outro e investíssemos mais nas pessoas com um olhar coletivo e humano, talvez tivéssemos empreendedores mais amparados e seguros nas suas atividades.
Sua atuação com outras mulheres empreendedoras é forte — isso é propósito ou também estratégia de impacto?
Começou muito mais como estratégia e hoje se tornou muito mais um propósito forte, até mesmo pelas vivências que tenho e pelas relações estabelecidas neste campo. Entendo que posso colaborar de maneira altruísta também porque acredito veementemente no poder do coletivo.
O que a maternidade mudou na sua forma de comunicar, liderar e empreender?
Tudo. Muda tudo. Ser mãe é algo transcendental, inexplicável. Só quem vive sabe a dor e a delícia de sentir o coração batendo fora do peito e de ter que equilibrar todo o exterior e também os sentimentos internos para conseguir se realizar na própria individualidade. Então, quando se torna mãe, você adquire um novo filtro, um filtro com limites, mas também com muitas possibilidades. Isso a faz mais forte, porque você precisa ser mais forte, e isso reflete na liderança e na maneira de reagir ao mundo.
Escrever um livro foi uma necessidade pessoal ou uma extensão do seu trabalho como comunicadora?
Os dois. Eu tenho vários textos e livros inacabados que um dia ainda serão concluídos e voarão pelo mundo afora. Eu gosto de compartilhar, é uma necessidade. Consigo fazer isso utilizando certa plasticidade por meio da escrita e gosto muito de fazer isso. Algumas coisas de dentro eu só consigo extrojetar por meio da escrita, e isso me ajuda a viver.
Se você tivesse que dar um direcionamento direto para quem quer empreender hoje, qual seria?
Estude, faça algo de que goste, utilize o que tem para iniciar o sucesso. Tudo tem prazo e nada é do dia para a noite. O sucesso não seria diferente. Descanse, relaxe, contemple… precisei entrar na terapia para entender que eu tinha perdido alguns limites quando o assunto é trabalho; tive que me reconectar com a minha alma. E hoje eu vejo que consigo fazer o que gosto. Passo por muitos desafios e desalentos, mas hoje as coisas acontecem de forma diferente, e eu consigo respirar, contemplar meus filhos, meu marido e acreditar que sou mais forte que os desafios que me aparecem. Não porque sou arrogante, mas porque aprendi a ser humilde diante das minhas dificuldades e falhas.
